
Joaquin Gonzalez-Aleman — representante do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) no Brasil
Um paradoxo marca as eleições brasileiras: crianças estão em todo lugar, em slogans, imagens e discursos, mas nem sempre aparecem efetivamente na disputa eleitoral. Isso é especialmente verdade no debate sobre segurança pública, que é hoje a principal preocupação dos eleitores. Por quê?
A violência preocupa os brasileiros mais do que a corrupção, a saúde ou a economia, segundo pesquisa recente da Genial/Quaest. E não há dúvida de que meninos e meninas são os mais impactados por essa insegurança.
Nas últimas décadas, o Brasil avançou na garantia de direitos como saúde e educação, mesmo diante de profundas desigualdades. O Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) acompanhou e contribuiu com essa jornada desde 1950, quando chegamos ao país, trabalhando junto à União, estados e municípios, ao lado do setor privado, da sociedade civil e das próprias crianças e adolescentes. Mas vimos também que uma agenda segue se agravando no Brasil: a violência contra meninas e meninos, dentro e fora de casa.
Dito isso, e a quatro meses das eleições, é urgente que candidatos e candidatas assumam um compromisso público para não perder mais nenhuma criança para a violência. Qualquer violência: não importa se é a que acontece dentro de casa, muitas vezes praticada por familiares ou pessoas próximas, ou a que acontece na tela dos celulares, ou a que acontece nas ruas, como consequência da violência armada, da criminalidade, das intervenções das forças de segurança, do racismo ou da misoginia.
Para isso, é fundamental que as candidatas e os candidatos à Presidência e aos governos estaduais se comprometam a criar e colocar em prática uma Política Nacional de Prevenção de Violências contra Adolescentes.
Essa política deve focar nos mais impactados, os meninos negros, de periferia, e articular resposta e prevenção, envolvendo não só a pasta de segurança pública, mas as de educação, trabalho, saúde, assistência social e direitos humanos, com uma governança clara e um orçamento próprio.
O objetivo deve ser garantir, especialmente às crianças e aos adolescentes em maior risco, o acesso pleno a direitos, oportunidades e serviços, além de contar com mecanismos de monitoramento e avaliação das políticas públicas que forem implementadas, de modo a produzir evidências sobre seus resultados. E, paralelamente, investigar e responsabilizar os autores de violência, garantindo a Justiça.
Só assim, iremos combater o ciclo vicioso em que milhares de meninos e meninas são submetidos à pobreza, ao racismo e às violências; abandonam a escola; não têm oportunidades dignas de trabalho ou de desenvolvimento; e terminam mortos ou encarcerados.
Para o âmbito da violência doméstica, e principalmente para a primeira infância, o compromisso dos candidatos deve ser o de apoiar as famílias. Mães, pais, avós e outros cuidadores precisam ser orientados a criar crianças sem recorrer à violência. Isso não significa ausência de limites ou disciplina, mas uma forma de educar sem agressão, garantindo proteção, vínculo e desenvolvimento saudável. Famílias devem, também, ser orientadas para saber reconhecer e o que fazer se descobrirem que a criança foi vítima de agressões sexuais, psicológicas ou físicas. E a Justiça deve atuar para apoiar as vítimas e responsabilizar os agressores.
Esse apoio não deve ficar apenas nas palavras. Ele deve ser integrado nas principais políticas nacionais e estaduais de primeira infância, cuidados, assistência social e enfrentamento às violências, em um compromisso de candidatos e candidatas com uma parentalidade mais protetiva e o cuidado com as crianças.
E, claro, essas promessas precisam ser feitas durante as eleições e concretizadas depois delas, além de refletidas no planejamento orçamentário dos governos eleitos.
Não priorizar as crianças no debate de segurança pública custa às famílias, ao Estado e aos próprios meninos e meninas. Em 2026, colocar a infância no centro do debate sobre violência é urgente e indispensável, e deve ser um compromisso de cada candidato e candidata para rompermos os ciclos das violências, garantir o desenvolvimento pleno das crianças e trazer mais prosperidade para o Brasil.
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