ARTIGO

Você se suporta?

Não caia na armadilha de que precisamos seguir as hostes e nos preconceitos de que gostar de si soa "estranho". Há histórias e há histórias

PRI-2205-OPINI.jpg, escrita, livro, literatura -  (crédito: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)
PRI-2205-OPINI.jpg, escrita, livro, literatura - (crédito: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)

Como é bom ser amado, não é? Sentir-se acolhido, protegido, amparado. Que sorte têm aqueles que nasceram em um berço aquecido pelo afeto — de ouro ou não. Crescer sob olhares atentos, ser rodeado de quem celebra os acertos, console no pesar e testemunhe a própria existência. Hoje, não escrevo para esses. Escrevo para os que caminham às margens, vagam a vida despercebidos, mas que descobriram, em meio ao silêncio, a moldura perfeita da solitude. 

Partimos do pressuposto de que todos seguirão a mesma viagem. Crescem, estudam, formam-se, compram um carro, um apartamento, casam-se e têm filhos. Uma espécie de linha do tempo carimbada. O roteiro não é ruim, mas nem todos se encaixam. E, às vezes, não é falta de vontade. É por não conseguir. A frase "você pode tudo" é linda, porém, se esbarra na realidade. 

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E, amigo, poucas forças são tão perigosas quanto o desespero de alcançar uma vida que nos ensinaram a desejar. Repito, o desespero. Você desejar isso é absolutamente normal. Mas atormentar-se e meter os pés pelas mãos te leva ao calabouço, te frustra e te torna invisível. Há uns dias, assisti ao filme Meu nome é Agneta. Por mais de 40 anos, serviu a todos (marido, filhos, trabalho), até perder-se em si mesma. Não era amada nem mesmo pelo esposo. Para quem ela existia? O filme ganha um contorno de alívio quando a personagem viaja à França sozinha para trabalhar, cria novos laços de amizade e renasce como uma fênix. A cena dela de lingerie frente ao espelho abraçando o próprio corpo e pedindo desculpas por abandoná-lo é uma das mais comoventes. 

É claro que parte da nossa identidade se constrói no reflexo dos outros e nas vivências. Mas chega um momento em que já não podemos atribuir aos ausentes, aos traumas ou às circunstâncias a condução da nossa existência. Em algum ponto da caminhada, somos chamados a tomar as rédeas da própria história. 

Eu sei que isso parece andar do lado oposto da multidão, mas é melhor construir a sua felicidade a depender do próximo. Aos que vagam sem se sentir amados, na minha crença, o amor de Jesus Cristo basta. O mandamento escrito no livro de Mateus, na Bíblia Sagrada, diz: "E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo." É tão clara essa passagem. "Como a ti mesmo". A pergunta é: você se ama? Você faz o bem a si mesmo? Ou você se destrói e deposita no ser humano o seu sorriso? 

Você se suporta sozinho em uma sala de cinema? Ou precisa do seu amigo para, quem sabe, no dia que ele decidir, assistir um filme e te proporcionar meio minuto de gargalhadas? Não sou conselheira, mas redescobrir-se e amar-se deveria estar escrevinhado com spray em cartazes no mundo todo.

Aos que vagam sem se sentirem amados, sugiro começar pelo básico. Experimente, se você gostar, sair para tomar um sorvete sozinho, assistir a uma peça, talvez. Isso não significa que você não possa ter amigos, marido ou estar em família. Pode e isso é uma dádiva. Mas não caia na armadilha de que precisamos seguir as hostes e nos preconceitos de que gostar de si soa "estranho". Há histórias e há histórias. E você é responsável pela sua.

 


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postado em 15/06/2026 06:01
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