
Washington Quaquá, Marcelo Velho e Keffin Gracher — prefeito, secretário de Saúde e secretário de Comunicação de Maricá, respectivamente
O Brasil abriu mão, ao longo das últimas décadas, de parte importante da sua soberania sanitária e tecnológica. Hoje, cerca de 90% dos insumos farmacêuticos ativos (IFAs) utilizados pela indústria nacional são importados, principalmente da China e da Índia, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos (Abiquifi) e da Fiocruz. Isso significa que grande parte dos medicamentos consumidos pela população brasileira depende da capacidade produtiva, logística e geopolítica de outros países.
A pandemia de covid-19 expôs de forma brutal essa fragilidade. Em um momento de crise global, o mundo inteiro disputava respiradores, vacinas, medicamentos e insumos. Países que possuíam capacidade industrial instalada responderam mais rapidamente. Países dependentes sofreram mais. O Brasil sentiu na prática o risco de não possuir autonomia produtiva em uma área estratégica para qualquer nação. Esse debate não é apenas econômico. É um debate sobre soberania.
O Rio de Janeiro tem papel histórico na construção da indústria farmacêutica e farmoquímica nacional. Instituições como a Fiocruz, o antigo Instituto Vital Brazil, universidades públicas e centros de pesquisa ajudaram a consolidar no estado uma tradição científica e produtiva ligada à saúde pública, à biotecnologia e à produção de medicamentos. Durante décadas, o Brasil chegou a desenvolver uma importante capacidade nacional de produção farmoquímica. Mas a abertura econômica desordenada dos anos 1990, somada à ausência de uma política industrial consistente de longo prazo, provocou um processo acelerado de desindustrialização do setor.
Hoje, o desafio é reconstruir essa capacidade olhando para o futuro. E o futuro da indústria farmacêutica será profundamente ligado à biotecnologia, à biodiversidade e aos medicamentos de origem vegetal. Nesse cenário, o Brasil tem vantagens competitivas gigantescas. Poucos países no mundo concentram simultaneamente biodiversidade, capacidade agrícola, sistema público de saúde, universidades e mercado consumidor na escala brasileira.
A cannabis medicinal surge nesse contexto como uma oportunidade estratégica. As recentes decisões da Agência Nacional de Vigilância Sanitária sobre exportação de cannabis medicinal e os debates em curso sobre regulamentação do cultivo e processamento no país apontam para a abertura de um mercado global em expansão acelerada. Segundo a consultoria Grand View Research, o mercado mundial de cannabis medicinal pode ultrapassar US$ 80 bilhões na próxima década.
O Brasil não pode assistir a esse movimento apenas como importador de produtos acabados. Temos clima, solo, capacidade agrícola, pesquisadores e sistema científico para participar da cadeia de maior valor agregado: pesquisa, cultivo, extração, desenvolvimento farmoquímico e produção de medicamentos.
A cannabis pode representar, para a bioeconomia do século 21, algo semelhante ao que a soja representou para a agricultura brasileira no século 20. Mas isso só acontecerá se houver capacidade nacional de processamento, pesquisa e industrialização. Exportar apenas matéria-prima significa repetir o velho modelo colonial. O desafio é transformar conhecimento científico e biodiversidade em tecnologia, emprego qualificado e soberania produtiva.
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E essa discussão vai além da cannabis. Diversas pesquisas já demonstram o potencial terapêutico de plantas e compostos naturais presentes na biodiversidade brasileira. A medicina do futuro, em muitos aspectos, reencontra conhecimentos ancestrais agora validados pela ciência contemporânea.
É com esse debate que Maricá deseja contribuir. Ao estruturar grupos de trabalho, dialogar com universidades, pesquisadores, instituições regulatórias e acompanhar os avanços da regulamentação nacional, Maricá busca participar da construção de um novo ciclo de desenvolvimento para o país. Um ciclo baseado em ciência, inovação, saúde pública e soberania nacional.
O Brasil precisa voltar a produzir conhecimento, insumos e medicamentos estratégicos. Não existe projeto de nação soberana sem capacidade tecnológica e industrial em saúde.
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