
Cristieni Castilhos — fundadora e CEO da MegaEdu, organização da sociedade civil sem fins lucrativos voltada à conectividade na educação pública; Mercedes Mateo — chefe da Divisão de Educação do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)
A transformação digital da educação deixou de ser uma promessa para se tornar prioridade na América Latina e no Caribe. Governos investiram em conectividade, distribuíram dispositivos e integraram plataformas digitais aos sistemas educacionais, mas o avanço segue desigual. A questão já não é se a tecnologia deve fazer parte da educação, mas como implementá-la em escala com impacto real na aprendizagem.
Há uma suposição equivocada de que ampliar o acesso, por si só, melhora a aprendizagem. Evidências mostram o contrário: sistemas educacionais podem estar mais conectados sem transformar o que ocorre em sala de aula. Distribuir dispositivos não garante seu uso pedagógico nem conectar escolas assegura a incorporação da tecnologia. Sem formação docente, plataformas adequadas e capacidade de gestão, o impacto é limitado e o resultado deixa de ser transformação para se tornar fragmentação.
Um problema central, porém, segue pouco visível: não sabemos quanto custa uma transformação digital completa.
Na prática, decisões públicas continuam sendo tomadas sem respostas estruturadas para perguntas básicas. Quanto custa garantir internet e wi-fi que realmente funcionem para as atividades escolares? Quantos dispositivos são necessários para que os estudantes usem tecnologia de forma regular, e não apenas ocasional? Que nível de investimento é necessário para formar professores com qualidade e em escala?
Sem essas respostas, as políticas avançam com base em suposições, estimativas frágeis ou escolhas parciais. Em alguns casos, isso leva a investimentos que não se sustentam ao longo do tempo. Em outros, os projetos travam e não saem do planejamento porque o esforço necessário não pode ser adequadamente dimensionado.
A estimativa de custos ainda é tratada como um detalhe técnico, quando deveria ser o ponto de partida. O Brasil oferece um exemplo: a partir de um estudo que estimou o necessário para conectar 140 mil escolas públicas, o país mobilizou novas fontes de financiamento e estruturou políticas que impulsionaram a universalização da conectividade nos últimos anos.
Não se trata apenas de saber "quanto custa", mas de entender o que é viável e em que escala. Quando os custos ficam explícitos, as escolhas deixam de ser abstratas e fica claro o que priorizar, o que pode ser postergado e quais abordagens exigem mais recursos.
A transformação digital exige decisões baseadas em evidências, com dados concretos sobre necessidades, padrões de qualidade e custos, e não em suposições. Sem essa base, até estratégias bem formuladas perdem consistência. E arriscam reproduzir as desigualdades que deveriam reduzir. Escolas em melhores condições avançam, enquanto outras seguem sem acesso efetivo à tecnologia nem às condições para utilizá-la. Avançar exige mudar o planejamento e tratar a transformação digital como um sistema integrado.
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Iniciativas como a Calculadora de Custo da Aprendizagem Digital, desenvolvida pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em parceria com a MegaEdu, avançam nessa direção. Mais do que oferecer respostas prontas, a ferramenta organiza dados e variáveis centrais ao planejamento, como escala, parâmetros de qualidade e custos, e permite simular cenários e estimar investimentos para diferentes estratégias. Mas o ponto não é a ferramenta em si, e sim o que ela representa. Se a transformação digital quiser gerar impacto real na aprendizagem, é preciso abandonar a ideia de que a tecnologia, sozinha, resolve o problema e deixar de tratar o custo como etapa final.
Ferramentas como essa não resolvem, isoladamente, os desafios da educação digital, mas ajudam a estruturar decisões. Sem clareza sobre custos, não há planejamento viável e, sem ele, a transformação digital seguirá como uma promessa, não uma mudança concreta nos sistemas educacionais.
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