Em 13 de junho, antes do apito inicial do jogo de estreia contra o Marrocos na Copa do Mundo 2026, o Brasil já tinha vencido algo importante. Basta caminhar pelas ruas, abrir as redes sociais ou observar as mesas dos bares para perceber que, mais uma vez, a Seleção Brasileira conseguiu fazer aquilo que poucas instituições ainda conseguem: reunir um país inteiro em torno de um mesmo assunto. Gente que discorda de tudo encontra um raro ponto de convergência. Durante 90 minutos, diferenças políticas, religiosas, econômicas e culturais parecem perder espaço para uma esperança compartilhada.
É um fenômeno curioso. Em tempos de algoritmos que segmentam opiniões e de uma sociedade cada vez mais fragmentada, o futebol ainda produz encontros. Não resolve os problemas do Brasil, evidentemente, mas lembra que eles pertencem a uma mesma nação.
É justamente por isso que o confronto contra o Japão, hoje, carrega um significado que vai além da classificação. Nesta fase do mata-mata, a vitória prolonga o sonho, mas uma eventual derrota não pode significar o fim desse raro estado de espírito coletivo.
Porque, se o Brasil for eliminado agora, o país voltará rapidamente à programação normal. As bandeiras desaparecerão das janelas, as conversas migrarão para outros assuntos, as provocações darão lugar às críticas, e a união dará espaço, novamente, às divisões que nos acompanham diariamente. É um roteiro conhecido: a paixão nacional costuma ser intensa, mas também efêmera.
Talvez, esteja aí uma oportunidade de reflexão. Por que somos capazes de vestir a mesma camisa apenas quando ela tem o escudo da Seleção? Por que o sentimento de pertencimento precisa depender exclusivamente do resultado de um jogo?
A Copa do Mundo evidencia que o brasileiro ainda deseja fazer parte de algo maior. Ainda gosta de celebrar coletivamente, de ocupar as ruas, de cantar junto, de acreditar que a vitória de 11 jogadores também lhe pertence. Esse desejo é legítimo e profundamente humano. O desafio é impedir que ele desapareça junto com uma eliminação.
Manter esse calor exige ampliar o conceito de torcida. Vai além de Vini Jr., Neymar, Endrick... É apoiar o esporte brasileiro durante os quatro anos que separam uma Copa da outra. É acompanhar as seleções femininas e de base. É valorizar atletas olímpicos, projetos sociais, clubes locais e iniciativas que transformam o esporte em ferramenta de educação e cidadania. É entender que o orgulho nacional não precisa existir apenas quando há uma taça em disputa.
Se o Brasil vencer o Japão, o país seguirá embalado pelo sonho do hexacampeonato — e que assim seja. Mas, se a eliminação vier, talvez o verdadeiro teste comece justamente depois do apito final. Será a oportunidade de provar que nossa capacidade de caminhar juntos é maior do que a duração de um Mundial.
A Copa passa, porém, o sentimento de pertencimento deveria permanecer. Porque um país que só consegue se reconhecer quando a bola rola desperdiça uma das suas maiores virtudes: a extraordinária capacidade de se unir quando encontra uma causa comum. O desafio do Brasil é descobrir que essa causa pode existir muito além dos gramados.
