
Hélio Laranjeira — procurador de Estado, educador e pesquisador da educação profissional e tecnológica. Foi conselheiro do Conselho de Educação do DF e presidente da Câmara de Educação Profissional e Tecnológica
O Brasil começa a construir uma das mais importantes arquiteturas institucionais para o futuro da educação profissional: o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Profissional e Tecnológica, o Sinaept. É uma iniciativa necessária. Talvez até tardia. Durante décadas, aprendemos a contar matrículas, autorizar cursos, fiscalizar documentos e verificar estruturas. Mas ainda sabemos pouco sobre perguntas mais importantes: o estudante aprendeu? Concluiu o curso? Desenvolveu as competências necessárias? Conseguiu trabalho? Melhorou sua renda? A formação dialoga com as vocações econômicas do território?
Essas perguntas deveriam estar no centro de qualquer sistema contemporâneo de avaliação da educação profissional. A criação do Sinaept representa uma oportunidade histórica. Mas traz também um risco: construirmos um sistema destinado a avaliar a educação profissional do futuro utilizando instrumentos concebidos para a escola do passado.
Não existe avaliação neutra. Todo instrumento carrega uma concepção de qualidade. Quando valorizamos predominantemente prédios, equipamentos e documentos, estamos dizendo que qualidade é estrutura e conformidade. Quando medimos aprendizagem, permanência, competências e inserção profissional, afirmamos que a transformação produzida pela educação também importa.
As condições de oferta são fundamentais. Segurança, organização pedagógica, professores preparados e ambientes adequados são indispensáveis. Mas existe uma diferença decisiva entre avaliar as condições para que a aprendizagem aconteça e verificar se ela efetivamente aconteceu.
Uma instituição pode possuir excelentes instalações e documentos impecáveis — e produzir pouca aprendizagem. Outra pode utilizar uma estrutura mais enxuta, laboratórios compartilhados, ambientes profissionais reais, simuladores, inteligência artificial, realidade virtual e plataformas adaptativas — e produzir resultados extraordinários. Qual delas oferece maior qualidade?
A resposta não pode estar apenas nos prédios. Por isso, o Sinaept não deveria se transformar simplesmente em um "Sinaes (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior) dos cursos técnicos". A educação profissional possui natureza própria. É mais dinâmica, territorial, conectada ao mundo do trabalho e sensível às mudanças tecnológicas.
Precisamos incorporar o conceito de infraestrutura educacional expandida. A escola do século 21 não termina em seus muros. Pode utilizar hospitais, indústrias, oficinas, centros tecnológicos, unidades móveis, laboratórios compartilhados, simuladores e ambientes digitais.
A pergunta não deveria ser apenas: "A instituição possui determinada estrutura?". Mas: "Dispõe de acesso efetivo, seguro e pedagogicamente adequado aos recursos necessários para desenvolver as competências previstas?".
Essa mudança permitiria compartilhar infraestrutura, reduzir desperdícios, aproximar escolas e empresas e levar educação profissional a regiões onde seria economicamente inviável reproduzir estruturas tradicionais completas. É fazer mais com menos, sem abrir mão da qualidade.
A visita in loco continuará importante. Mas uma visita é uma fotografia. A aprendizagem é um filme. Hoje, a tecnologia permite acompanhar continuamente frequência, participação, desempenho, progressão, risco de evasão e desenvolvimento de competências. O futuro da avaliação deveria combinar presença, dados e evidências: in loco mais digital mais longitudinal mais avaliação de competências.
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A visita verifica. Os dados acompanham. A competência demonstra. A trajetória do estudante revela. E o mundo do trabalho ajuda a confirmar. Talvez seja necessário inverter a lógica tradicional da avaliação. Em vez de começar pelo prédio e terminar no aluno, deveríamos começar pela trajetória humana: acesso, permanência, aprendizagem, competência, certificação, inserção produtiva e aprendizagem ao longo da vida.
O estudante não entra em um curso técnico para melhorar os indicadores de uma instituição. Entra para transformar sua vida. Por isso, o diploma não pode ser o último dado que conhecemos sobre ele. Precisamos compreender se conseguiu trabalho, se atua na área em que foi formado, se sua renda aumentou, se empreendeu ou prosseguiu os estudos.
Também precisamos perguntar se o curso faz sentido no território em que é oferecido. Um curso pode ser excelente e, ainda assim, formar para empregos que não existem naquela região. Outro cuidado é impedir que a avaliação congele a inovação. Todo indicador produz comportamento. Se premiarmos documentos, as instituições produzirão documentos. Se premiarmos patrimônio, comprarão patrimônio. Se valorizarmos aprendizagem, competências e resultados, buscarão melhorar esses resultados.
O princípio deveria ser simples: equivalência de resultados, e não identidade de meios. O Estado deve exigir qualidade, segurança, aprendizagem e transparência. Mas não deve presumir que existe apenas um caminho para alcançá-las.
O Sinaept poderá tornar-se mais um sistema de formulários, visitas, relatórios, notas e processos. Ou poderá ser algo muito maior: uma verdadeira inteligência nacional da educação profissional, integrando aprendizagem, competências, permanência, conclusão, trabalho, renda, demandas territoriais e transformações tecnológicas.
Nesse modelo, avaliar não seria apenas controlar. Seria produzir inteligência para ajudar o estudante a escolher, a instituição a melhorar, o Estado a planejar e o território a desenvolver suas vocações. O Brasil precisa do Sinaept. Mas precisa ter coragem para enfrentar a pergunta central: vamos avaliar a educação profissional do futuro com os instrumentos do passado?
A escola mudou. O trabalho mudou. A tecnologia mudou. O estudante mudou. A forma de aprender mudou. A avaliação também precisa mudar.

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