ARTIGO

O mandato passa. O patrimônio permanece

A economia nunca depende apenas das urnas. Projetos de governo têm duração limitada. Projetos de vida, não

. -  (crédito: pacifico)
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Ricardo Humberto Rocha coordenador dos programas de finanças do Insper 

 À medida que as eleições de 2026 se aproximam, cresce também uma velha ansiedade nacional. Multiplicam-se as projeções sobre inflação, juros, dólar, Bolsa de Valores e crescimento econômico. Empresas revisam cenários, investidores acompanham pesquisas eleitorais e famílias se perguntam se este é o momento de comprar, vender, esperar ou mudar seus planos.

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É uma reação compreensível. As eleições importam. Um novo governo pode acelerar reformas, fortalecer a confiança, melhorar o ambiente de negócios e estimular investimentos. Também pode adiar decisões importantes, ampliar incertezas e comprometer o equilíbrio das contas públicas. Ignorar a influência da política sobre a economia seria ingenuidade.

Mas existe um risco que costuma receber menos atenção. O de transformar cada eleição em motivo para abandonar um planejamento construído durante anos. 

O presidente que assumirá o Brasil em janeiro de 2027 encontrará desafios conhecidos. A dívida pública continuará exigindo responsabilidade. As despesas obrigatórias seguirão pressionando o orçamento. O envelhecimento da população ampliará a demanda por Previdência e saúde. Ao mesmo tempo, permanecerá a necessidade de investir em infraestrutura, educação, segurança pública e inovação para aumentar a produtividade e sustentar o crescimento econômico. Quem vencer as eleições escolherá os caminhos. Não poderá eliminar os desafios.

Para as famílias, entretanto, a pergunta costuma ser outra. Como proteger e ampliar o patrimônio em um ambiente no qual a única certeza é a existência da incerteza? A experiência brasileira ensina que vale a pena desconfiar das respostas simples. Em praticamente todas as eleições das últimas décadas, surgiram previsões categóricas sobre o futuro da economia. Em alguns momentos, predominava a convicção de que o país viveria um longo período de prosperidade. Em outros, anunciava-se uma crise inevitável. Algumas expectativas se confirmaram. Muitas foram revistas diante de acontecimentos que ninguém antecipava quando a campanha eleitoral ainda ocupava as manchetes.

Porque a economia nunca depende apenas das urnas. Ela responde também ao cenário internacional, à política monetária, aos avanços tecnológicos, à produtividade, às decisões de empresas e consumidores, às transformações demográficas e aos imprevistos que inevitavelmente surgem ao longo do caminho. Essa é uma boa lembrança para quem administra o patrimônio da família.

Planejamento financeiro não consiste em descobrir o futuro. Consiste em preparar-se para diferentes futuros possíveis. Quem organiza seus investimentos supondo que apenas um cenário acontecerá faz uma aposta. Quem reconhece que o futuro é incerto procura construir uma estratégia capaz de atravessar diferentes governos, diferentes ciclos econômicos e diferentes momentos dos mercados.

Essa, talvez, seja a maior diferença entre reagir aos acontecimentos e planejar. Projetos de governo têm duração limitada. Projetos de vida, não. Quem investe para garantir a educação dos filhos, comprar um imóvel, construir uma aposentadoria ou preservar o patrimônio da família está tomando decisões que produzirão efeitos durante décadas. Esse horizonte ultrapassa vários mandatos presidenciais.

Os investidores que conseguiram construir patrimônio ao longo do tempo não foram, necessariamente, aqueles que acertaram todas as previsões eleitorais. Foram, sobretudo, aqueles que evitaram reconstruir sua estratégia a cada mudança no cenário político ou econômico. Compreenderam que disciplina, diversificação e visão de longo prazo costumam produzir resultados mais consistentes do que decisões tomadas sob o impacto das manchetes.

As eleições definirão quem governará o Brasil a partir de 2027. Essa escolha será decisiva para o país. A construção do patrimônio das famílias, porém, continuará dependendo de algo que nenhuma eleição é capaz de substituir: planejamento, disciplina e capacidade de manter o rumo mesmo quando o ambiente político muda.

Porque o mandato passa. O patrimônio permanece.

 

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Por Opinião
postado em 21/07/2026 05:01
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