Opinião

Inocência assassinada

Que um novo tempo seja forjado na terra de Moisés, Jesus, Maomé. Um tempo em que a voz de uma criança ecoe apenas com sorriso e alegria, não com dor, pavor e desesperança

O filme A voz de Hind Rajab conta a história da garotinha de 6 anos que  clamou por socorro  -  (crédito: Synapse/ Divulgação)
O filme A voz de Hind Rajab conta a história da garotinha de 6 anos que clamou por socorro - (crédito: Synapse/ Divulgação)

No último sábado, assisti ao filme A voz de Hind Rajab, vencedor do Prêmio Especial do Júri no Festival de Veneza. É, literalmente, um soco no estômago. Com 90 minutos de duração, a obra gira em torno do diálogo de voluntárias da Sociedade do Crescente Vermelho Palestino com uma garotinha de 6 anos, presa dentro de um carro destruído por um tanque israelense no norte da Faixa de Gaza. Hind Rajab clamou por socorro várias vezes, implorou que a tirassem dali, enquanto passava horas ao lado dos corpos dos tios e dos primos. Quando uma ambulância conseguiu se aproximar da menina, foi alvejada pelo Exército de Israel, causando a morte dos dois socorristas.

O que torna a história mais assustadora é o caráter documental do filme. Hind Rajab morreu em 29 de janeiro de 2024. Sua voz aparece em vários momentos nas gravações originais usadas pela diretora tunisiana Kaouther Ben Hania. É possível sentir o medo, o desespero de uma criança encurralada por tanques. Tantas Hinds morreram durante a guerra na Faixa de Gaza e ao longo de quase oito décadas de conflito no Oriente Médio.

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Crianças palestinas que tiveram a vida ceifada de forma covarde, em nome de um ódio que não lhes pertence. Também condeno com veemência o cruel e dantesco massacre de 7 de outubro de 2023, quando bebês e crianças israelenses foram assassinados por terroristas do Hamas. Mais uma vez, o ódio não lhes pertence. O coração de uma criança é livre de maldade e repleto de pureza.

Não consigo imaginar como a crueza da guerra molda o coração daqueles pequenos que, por sorte, sobrevivem aos seus horrores. A sede de vingança, o ressentimento e o rancor semeiam um futuro de mais violência, em um ciclo de cólera sem-fim que acaba por se retroalimentar.

Passou da hora de israelenses e palestinos colocarem a própria sobrevivência acima de tudo e apostarem em um futuro de paz. É urgente que ambos deixem tanta mágoa de lado e forjem tempos em que o silêncio das armas seja imperativo.

A solução passa necessariamente pelo reconhecimento do direito de palestinos e israelenses viverem em Estados seguros, soberanos e em paz. Uma nação palestina capaz de prosperar reduziria o espaço político ocupado por organizações extremistas. É preciso que todos os grupos ideológicos da Palestina unam-se em uma só voz e aceitem a coexistência pacífica de um Estado árabe e um Estado judeu.

Desde a criação de Israel, em 14 de maio de 1948, gente demais tem morrido dos dois lados. Atentados terroristas, ataques de colonos judeus, massacres e bombardeios têm sido uma constante em um Oriente Médio que anseia e grita pela paz. É preciso que as barbáries parem de uma vez e que os autores sejam levados à Justiça e paguem pelos seus crimes.

Que um novo tempo seja forjado na terra de Moisés, Jesus, Maomé. Um tempo em que a voz de uma criança ecoe apenas com sorriso e alegria, não com dor, pavor e desesperança. Por Hind Rajab, por outras crianças mortas na Palestina e em Israel.

 

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postado em 22/07/2026 05:00
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