
Angela Maria Xavier Freitas — escritora, professora, pesquisadora e atual coordenadora da Casa de Cultura de Gravataí (RS)
Descolonizar o currículo escolar não é apenas uma escolha pedagógica; é dever ético urgente com a história do nosso país. O fazer educativo se consolida no encontro e na escuta, territórios onde fomos historicamente ensinados a silenciar vozes marginalizadas. Atuando como mediador, o professor promove um diálogo horizontal que transforma a sala de aula em um espaço de construção conjunta do conhecimento e transformação social.
Foi justamente nas salas de aula da Educação de Jovens e Adultos (EJA), nos anos 2000, que minha trajetória como educadora — e também como mulher negra — sofreu uma reviravolta definitiva, provocada pelo questionamento contundente de uma aluna negra sobre a verdadeira saga dos lanceiros negros. Os lanceiros negros, formados majoritariamente por escravizados que buscavam a emancipação, lutaram unicamente pela liberdade, motivados por uma promessa de alforria feita pelas lideranças republicanas.
No entanto, essa promessa foi cruelmente descumprida na madrugada de 14 de novembro de 1844, em virtude de uma traição deliberada por parte de alguns líderes farroupilhas, que desarmaram o corpo de lanceiros no infame episódio do Massacre de Porongos. A estudante trouxe para o debate a oralidade herdada de seu avô, contrapondo-se ao apagamento sistemático promovido pelos manuais tradicionais. Esse episódio escancarou o racismo estrutural que ainda dita o que deve ser lembrado e o que deve ser esquecido no ensino fundamental. O incômodo diante desse silêncio institucional me impulsionou a buscar especializações acadêmicas, pois ficou nítido que rebater a narrativa eurocêntrica exige fundamentação teórica sólida e coragem para desafiar o status quo.
Ainda impactada pelo apagamento promovido pelos livros didáticos, decidi utilizar o teatro como estratégia para abordar o tema com turmas dos anos iniciais. Através da esquete Lanceiros Negros, os estudantes puderam encenar e compreender o verdadeiro protagonismo desses guerreiros na Guerra dos Farrapos (1835-1845). As crianças levaram essas reflexões sobre justiça e liberdade para além dos muros da instituição. Pais e responsáveis participaram ativamente ao ouvirem relatos e questionamentos. Esse diálogo fortaleceu a identidade cultural e a consciência social dentro dos lares. Essa transposição prática provou que o letramento racial transforma a teoria em impacto social direto, tocando a sensibilidade em prol da consciência dos alunos.
A culminância desse processo se materializou na transição dos palcos para as páginas, com a publicação de literatura infantil antirracista. Nascia a obra O lanceirinho negro, pensada justamente para preencher a lacuna de representatividade na infância, humanizando, dignificando e transformando em heróis figuras que a história oficial tentou reduzir a meros figurantes. Em 2021, o projeto foi premiado por um edital cultural de fomento, o que viabilizou publicação física e distribuição gratuita nas escolas públicas de Porto Alegre e arredores. Vieram desdobramentos. A obra foi adaptada com sucesso para o teatro e surgiu uma obra irmã, intitulada A lanceirinha, que alcançou consagração ao ser indicada como finalista do prestigiado Prêmio Açorianos de 2025.
Tudo isso evidencia que a literatura representa uma importante ferramenta na busca por ancestralidade e pertencimento. Ao se enxergarem nos papéis de heróis e heroínas, crianças negras ressignificam a própria identidade dentro do ambiente escolar, enquanto estudantes não negros desenvolvem uma reflexão crítica indispensável para o desmantelamento de preconceitos históricos. Essa intervenção literária e artística rompe com a barreira da colonialidade do saber, descentralizando a narrativa oficial eurocêntrica e fincando, no solo pedagógico, a urgência de uma memória coletiva plural, justa e verdadeiramente representativa.
A escuta ativa na educação, sob a ótica freiriana, constitui um ato político e amoroso que valida a bagagem cultural dos alunos. Atuando como mediador, o professor promove um diálogo horizontal que transforma a sala de aula em um espaço de construção conjunta do conhecimento e transformação social. Na perspectiva de Paulo Freire, a escuta autêntica e humanizadora é inseparável de uma educação antirracista. Essa trajetória reafirma que a transformação social e o combate ao racismo começam na observação atenta em sala de aula, ganham corpo na pesquisa acadêmica e se materializam na devolução de novas narrativas literárias e artísticas para a comunidade.
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