
Mozart Neves Ramos — titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira do Instituto de Estudos Avançados da USP de Ribeirão Preto
Os motivos pelos quais um estudante deixa de concluir a última etapa da educação básica no Brasil são relativamente bem conhecidos — entre eles, a necessidade de trabalhar. E por essa razão o governo federal lançou, em 2024, o programa Pé-de-Meia, como um mecanismo de levar renda a esse estudante de ensino médio e evitar que ele deixe os bancos escolares. Já há indícios de que o programa tem impacto na redução da evasão escolar. Segundo o Ministério da Educação (MEC), a taxa de abandono escolar no ensino médio caiu de 3,8% em 2023 para 2,2% em 2025 — ou seja, cerca de 42% em dois anos.
Para contribuir com esse debate, o Todos Pela Educação lançou um estudo tomando como referência os recentes dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua, de responsabilidade do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), atualizando, em termos quantitativos, os motivos pelos quais os estudantes não concluem o ensino médio no Brasil até os 19 anos.
A primeira boa notícia desse estudo é que a taxa de conclusão vem aumentando gradualmente de 2016 a 2025. De 57,5% em 2016, essa taxa passou para 74,3% em 2025 — portanto, estamos falando de um crescimento de 16,8 pontos percentuais. E, como disse, esse crescimento foi consistente de 2016 para 2025. Mas há diferenças importantes nos indicadores por raça/cor e de região para região. Por exemplo, em 2025, a taxa de conclusão na Região Nordeste foi de apenas 69,3%, enquanto na Região Sudeste ela alcançou 79,6%. Com relação ao indicador por raça/cor, entre brancos e amarelos a taxa de conclusão em 2025 foi de 81,7%, enquanto entre pretos, pardos e indígenas essa taxa foi de apenas 69,5%.
É ainda interessante verificar tais diferenças tomando como referência a renda. Entre os 20% mais ricos, 94,2% dos jovens concluíram essa etapa até os 19 anos, mas, entre os 20% mais pobres, esse percentual desaba para 61,1% — uma diferença de 33,1 pontos percentuais. Como diz o próprio relatório do Todos Pela Educação, um ponto que chama a atenção é que, entre os mais pobres, o motivo principal do abandono escolar encontra-se no desinteresse pela escola (10,4%) e não pela necessidade de trabalhar (7,1%).
O jovem quer uma escola que caiba na vida, que traga sentido para o seu projeto de vida. Nesse sentido, torna-se fundamental que o MEC, em colaboração com as redes estaduais, esteja atento à implantação do novo ensino médio — que deve se refletir numa escola mais flexível, que traga um diálogo estreito com o mundo do trabalho e que possa desenvolver nos jovens as novas competências e habilidades tão necessárias para viver no século 21.
A preocupação que ainda persiste refere-se ao elevado percentual de jovens que não concluíram o ensino médio até os 19 anos — um em cada quatro —, ou seja, 25% desses 8,7% ainda estão estudando em 2025, e, se forem bem-sucedidos, devem concluir o ensino médio com mais de 19 anos — um atraso escolar bastante significativo.
É ainda interessante verificar a taxa de conclusão no ensino médio até os 19 anos por unidades da Federação. Os três estados com maiores taxas de conclusão em 2025 foram Roraima (85,9%), Goiás (84,5%) e São Paulo (84,4%); enquanto os três com menores taxas foram Paraíba (61,9%), Mato Grosso do Sul (60,8%) e Acre (56,4%). O estado de Pernambuco, tão reconhecido pelas escolas de tempo integral no ensino médio, ficou apenas um pouco acima da média brasileira, com uma taxa de conclusão de 75,2%.
A necessidade de trabalhar continua sendo o fator mais expressivo para a não conclusão do ensino médio até os 19 anos (6,4%), mas a falta de interesse pela escola vem logo em seguida, com 5,9%; a boa notícia é que esses percentuais em 2016 eram bem maiores (8,9% e 8,4%, respectivamente). Esses números da Pnad Contínua de 2025, trazidos à tona pelo Todos Pela Educação, mostram melhoras importantes na taxa de conclusão do ensino médio até os 19 anos — mas a questão é que o desafio ainda persiste, em especial no que se refere ao fortalecimento das políticas atuais de acesso à renda pelos jovens e também à oferta de uma escola que atenda aos interesses dessa juventude.
Nesse caso, entendo que escolas em tempo integral, vinculadas à formação para o mundo do trabalho, em consonância com o novo ensino médio, seriam o esforço colaborativo que os governos, no âmbito federal e estadual, deveriam ampliar. O Brasil tem ainda um percentual muito baixo de jovens fazendo o ensino médio integrado ao ensino profissionalizante, diferente de países desenvolvidos. Essa oferta deve estar, por sua vez, vinculada à demanda local para associar a conclusão do ensino médio à empregabilidade.
Saiba Mais

Opinião
Opinião
Opinião