
A escola sempre foi o lugar em que a sociedade delega o que não sabe resolver em casa. Foi assim com a educação sexual, com a saúde alimentar, com o bullying. Desta vez, é a vez das telas. Afinal, a coincidência entre a explosão do uso de smartphones e a deterioração do bem-estar juvenil deixou de ser uma hipótese para se tornar um consenso científico. A questão agora não é mais se as telas fazem mal. É o que fazer a respeito.
A pesquisa TIC Educação 2025, lançada nesta semana pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), ligado ao Comitê Gestor da Internet no Brasil, com base em entrevistas com mais de 2,4 mil gestores escolares, revela um dado que merece atenção: oito em cada 10 escolas brasileiras já incluíram em sua agenda o debate sobre o impacto das tecnologias digitais na saúde mental dos estudantes. O número representa um salto de 18 pontos percentuais em apenas um ano e reflete uma realidade áspera: as instituições de ensino estão tentando administrar os sintomas de uma crise comportamental que ultrapassa seus muros. A restrição do uso de celulares nas salas de aula, que começou no início do ano passado, foi uma medida necessária e correta. Tratar esse banimento como solução definitiva, no entanto, é uma perigosa ilusão.
Impedir a presença de smartphones durante o turno letivo estanca a desatenção imediata e força o convívio social no pátio. Contudo, o esforço pedagógico esbarra no vácuo de limites quando, ao fim das aulas, o aluno retorna a um ecossistema doméstico de telas irrestritas, muitas vezes utilizadas como ferramentas de conveniência por adultos exaustos em busca de silêncio. Os efeitos colaterais desse hiperestímulo traduzem-se em distúrbios crônicos de sono, ansiedade, apatia física e deficit de aprendizado. Confiscar o aparelho por algumas horas passa longe de ser solução.
A pesquisa do Cetic.br indica que o ambiente escolar tenta assumir esse protagonismo. Em 2025, 75% dos gestores convocaram pais e responsáveis para discutir o impacto das tecnologias, ante 60% no ano anterior. O debate sobre o uso seguro e crítico dos recursos digitais saltou de 56% para 75% nas pautas escolares. Há, porém, um gargalo estrutural. As ações preventivas são profundamente desiguais: prevalecem nas escolas urbanas e naquelas com melhor infraestrutura de conectividade, deixando as regiões mais vulneráveis duplamente expostas.
O dado mais revelador da pesquisa, porém, está nos obstáculos: 75% dos gestores que realizam ações de educação digital apontam a baixa participação das famílias como o principal entrave. É um diagnóstico que aponta onde o problema realmente mora. As escolas e os professores têm papel fundamental ao frear a invasão dos dispositivos no momento do estudo, mas não têm prerrogativa nem meios de reeducar as famílias. A terceirização da disciplina digital para o corpo docente é uma omissão cujos custos já estão sendo cobrados no desenvolvimento das novas gerações.
O poder público pode formular diretrizes e a escola deve aplicar restrições rigorosas. Mas o exercício prático da moderação e o monitoramento de conteúdo são deveres indelegáveis de quem cria. A proteção da integridade mental dos jovens não será garantida apenas por regimentos escolares. A linha de defesa contra os excessos do mundo digital precisa, obrigatoriamente, começar dentro de casa.
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