ARTIGO

Escutemos os pedidos de socorro

É obrigação de cada um de nós estarmos atentos aos sinais de maus-tratos contra crianças e adolescentes, darmos crédito aos relatos que fazem e buscarmos socorro.

. -  (crédito: Pacífico/CB/D.A Press)
. - (crédito: Pacífico/CB/D.A Press)

No vídeo, o garotinho, de apenas 3 anos, chora para não ir para a casa do pai. A mãe pergunta por quê. E a resposta: "Porque ele me bate". No dia seguinte, a criança foi encontrada morta… na casa do pai. O diretor do Instituto Médico Legal de Palmas, Eduardo Godinho, afirmou que o menino sofreu "muita violência". Segundo ele, houve laceração intestinal e hemorragia interna e externa. "Muita violência, sinais de violência pela face, intestinal", disse à TV Anhanguera.

A polícia ainda investiga as circunstâncias da morte, mas o legista já descartou a versão contada pelo pai de que o garotinho se afogou na piscina. "Não tem indício nenhum de afogamento. Ali foi realmente outro tipo de trauma." Segundo o G1, o laudo aponta, também, para violência sexual e que a morte ocorreu com "crueldade, insensibilidade, indiferença e multiplicidade de lesões".

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A morte dessa criança — com todos os indícios de um assassinato brutal — deixa a sensação de que poderia ter sido evitada. Primeiro, porque o pai tem histórico de violência doméstica, inclusive contra a mãe do menino, que registrou dois boletins de ocorrência em 2023. Em um deles, ela apresentou um áudio em que o ex-companheiro disparava ofensas e a ameaçava: "Te meto uma bala na cara". Como é que um sujeito agressivo assim tinha acesso ao garotinho sem supervisão? A Justiça foi acionada contra ele?

Além disso, o próprio menino relatou que era espancado. Ficou claro, no choro sentido dele no vídeo, que sofria quando estava com o pai. Por que não foi ouvido? A advogada da mãe disse que a mulher havia relatado várias outras ocasiões em que o filho voltou machucado das visitas, mas, por medo ante as ameaças do ex-companheiro, a cliente não permitiu que se buscassem medidas para afastá-lo do agressor.

Crianças vítimas de abusos nem sempre contam o que estão passando, geralmente por medo, mas dão sinais. São indícios como choro sem motivo aparente, vômitos, diarreia, ansiedade, tristeza constante, pesadelos frequentes. Lesões físicas, sem explicação plausível, também falam por elas. O garotinho de Palmas, porém, contou claramente o motivo de não querer a companhia do pai.  

Isso me lembrou do caso de Henry Borel, 4 anos. Ele relatou e sinalizou que estava em profundo sofrimento, disse ao pai que "o tio machuca". Mudou de comportamento, vivia aterrorizado, chorava e tremia quando estava diante do padrasto, o sádico que o martirizava. Também aparecia com lesões pelo corpo. Mesmo com todas as indicações, não foi salvo.

Relembro aqui declarações de Marco Gama, da Sociedade Brasileira de Pediatria, publicadas pelo site da entidade, que continuam atuais: "As situações de violência doméstica que levam à morte crianças e adolescentes costumam ser casos crônicos, repetitivos, de violência progressiva, em que a vítima não recebeu a assistência e as medidas de proteção que deveriam ter sido tomadas para mantê-la viva, tanto dos outros familiares como da sociedade e do Estado".

É obrigação de cada um de nós estarmos atentos aos sinais de maus-tratos contra crianças e adolescentes, darmos crédito aos relatos que fazem e buscarmos socorro. Neste momento, há um sem-número deles vivendo rotina de violência. É sofrimento real, severo, mas que, por vezes, acaba minimizado, naturalizado por familiares, parentes, amigos, vizinhos. A polícia e a Justiça estão aí para agir contra os covardes que estupram, torturam e matam meninas e meninos, mas uma atitude nossa, uma denúncia, tem potencial de cessar a violência e impedir que chegue a um ponto em que é tarde demais para agir. 

 

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postado em 06/08/2026 05:00
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