Visão do Correio

Omissão, atraso e demora institucionalizam a violência contra a mulher

O homem está agachado socando algo mais abaixo dele. Esse "algo mais abaixo" é a mulher que o acompanhava

 Secretaria de Estado de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP/DF) realizou evento
Secretaria de Estado de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP/DF) realizou evento "Comunicação que Protege", para o lançamento oficial do "Guia de Comunicação sobre Feminicídios no Distrito Federal". - (crédito: SSP/DF/Divulgação)

A gravação em vídeo é de má qualidade, mas dá para ver o casal descendo de um veículo em Pinheiros, zona residencial nobre de São Paulo, à noite. Segundos depois, o homem está agachado socando algo mais abaixo dele. Esse "algo mais abaixo" é a mulher que o acompanhava. Um carro identificado como da vigilância patrimonial local passa enquanto acontece o ataque. Diminui a marcha, mas não para. Por outra câmera, em um ângulo diferente, vê-se que ela está sentada enquanto é agredida. Por essa imagem, é possível notar que alguém olha, de longe, o espancamento. Esse observador, na cena seguinte, ajuda o agressor a carregar a mulher, agitada. Entre os dois, ela esperneia. Sabe-se, depois, que estava sendo levada contra a vontade.

O agressor é Ivo Vel Kos, 48 anos, empresário. A vítima, a dentista Giullia Falcão, 27 anos. Estavam casados há mais ou menos três anos. Conforme ela disse em depoimento à polícia, o espancamento flagrado pelas câmeras não era o primeiro. Ivo foi preso preventivamente, em 15 de agosto, horas depois do ataque. É réu por lesão corporal grave. Giullia ficou com o rosto desfigurado.

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A polícia, agora, tenta identificar os seguranças — os do veículo e o que ajudou Ivo a conter Giullia — que viram a agressão e não intervieram. Podem responder judicialmente por cumplicidade.

Tudo nesse relato confirma que o Brasil está empacado quando se trata de defender a vida delas. A Lei Maria da Penha — cujo alcance foi ampliado pelo Supremo Tribunal Federal, na sessão de quarta-feira, para agressores que não compartilham a convivência ou intimidade da mulher — parece não ter o efeito coercitivo necessário. Prova disso é que, em 2025, foram registrados 1.568 casos de feminicídio, conforme o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Aumento de 5,1% em relação a 2024, mas esse número pode estar aquém da realidade.

No espancamento de Giullia, chama a atenção, também, para o fato de que quem presenciou nada fez. Os seguranças somente diminuíram a marcha do carro; o vigilante da guarita ajudou o agressor a levá-la à força para casa, de onde ela poderia ter saído dentro de um saco do Instituto Médico Legal. Tais omissões confirmam o conceito machista de que em "briga de marido e mulher não se põe a colher". Mostram, ainda, que nem orientados são a ligar para a polícia quando testemunharem casos assim.

Leis e aumentos de penas não inibem agressores. São excelentes instrumentos, mas campanhas de esclarecimento e educação desde a base é que têm a eficácia para transformar mentalidades. Só que isso leva tempo. E os números escandalosos da violência contra a mulher constatam um imenso atraso.

Essa lentidão facilita o avanço de movimentos misóginos e de menosprezo ao papel feminino na sociedade. O Projeto de Lei 896/23, que criminaliza a discriminação à mulher e equipara ao racismo, parou na Câmara dos Deputados. Enfrenta a maré contrária de grupos reacionários.

Ainda na Câmara, o PL 988/26 — que cria o crime de incitação misógina organizada, propõe a proibição explícita de conteúdos ou organizações ligadas a movimentos do tipo red pill, e endurece a punição às redes de ódio — foi protocolado. Mas sequer tramita.

Nesse pântano, Giullia foi espancada não apenas uma, mas duas vezes. A primeira pelo ex-marido. A segunda, nas suas redes sociais. Influenciadora digital, ela as mantêm abertas para interagir com seguidores. Mas, desde a agressão, recebeu um chorrilho de mensagens desclassificadas. Todo tipo de boçalidade foi ali publicada por perfis que pouco importa se realmente existam, mas que confirmam a institucionalização da violência contra a mulher.

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postado em 23/08/2026 06:00
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