
Moacyr de Oliveira Filho, jornalista, ex-presidente da Aruc e ex-secretário-geralda Federação Nacional das Escolas de Samba (Fenasamba)
O desfile das escolas de samba de Brasília, realizado nos dias 21 e 22 de agosto, no Cave, no Guará, foi melhor do que se poderia imaginar. Mostrou que a maioria das escolas continua resistindo, apesar das dificuldades e de anos sem desfiles oficiais.
De maneira geral, as agremiações não decepcionaram. Pelo contrário: fizeram apresentações acima do que alguns críticos, principalmente nas redes sociais, previam. As escolas de Brasília continuam vivas e merecem respeito, apoio e políticas públicas.
Mas é preciso também ter coragem para apontar os erros.
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As cinco escolas do Grupo de Acesso que não desfilaram — Acadêmicos de Santa Maria, Unidos da Vila Paranoá, Coruja Serrana de Sobradinho II, Império do Guará e Riacho Fundo II — devem ser responsabilizadas. Se receberam recursos públicos e não cumpriram a obrigação assumida, devem devolver os recursos e sofrer as sanções cabíveis, conforme as regras aplicáveis. Não é aceitável receber dinheiro público e não comparecer ao desfile.
As escolas que desfilaram também precisam ser avaliadas. É necessário verificar se cumpriram as obrigações mínimas, especialmente quanto ao número de componentes fantasiados, carro alegórico, tripé e demais elementos previstos no regulamento. Não pode haver dois pesos e duas medidas.
Também considero equivocada a decisão da Aruc e do Bola Preta de Sobradinho de não desfilar no Cave junto com as demais, optando por outra data em suas regiões administrativas. Embora deva ser respeitada, essa decisão foi um desrespeito ao público e às coirmãs, mobilizadas para estar no Cave.
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Esse desfile de agosto deixa lições para o futuro.
A primeira é enxugar o número de escolas, privilegiando aquelas que efetivamente funcionam durante todo o ano, mantêm suas comunidades mobilizadas e desenvolvem atividades permanentes. Escola de samba não pode existir apenas para receber subvenção e desfilar uma vez por ano. Como já ensinou o historiador Luiz Antônio Simas, uma escola de samba desfila porque existe, e não existe para desfilar.
O carnaval de Brasília não pode mais conviver com escolas que têm apenas um CNPJ, não realizam atividades durante o ano, não têm comunidade mobilizada, bateria, casais de mestre-sala e porta-bandeira, compositores ou intérpretes e só esperam a subvenção para improvisar um desfile. Fantasias e alegorias são muitas vezes compradas fora, sem produção própria. E uma das essências de uma escola de samba deveria ser justamente formar profissionais do carnaval.
E há uma questão ainda mais grave: denúncias e suspeitas de desvio do dinheiro público. Precisam ser rigorosamente apuradas e, se comprovadas, punidas. Recurso público exige transparência e prestação de contas.
O último desfile oficial foi realizado em 2014, há 12 anos. Sem contar com o desfile improvisado de 2023, em junho. Brasília passou mais de uma década sem uma política consistente para seu carnaval.
Essa retomada precisa ser feita com seriedade e planejamento. Reduzir o número de escolas é fundamental, mas não suficiente. É preciso estabelecer calendário, regras permanentes, critérios objetivos para acesso aos recursos públicos e mecanismos de acompanhamento.
A segunda lição é definir uma data para a retomada do desfile oficial. Abril é uma alternativa, aproveitando o aniversário da cidade e criando uma identidade própria para a festa: "O carnaval do Brasil termina aqui".
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Esse poderia ser o slogan de uma nova fase, transformando o desfile da capital em um grande acontecimento cultural e turístico, capaz de atrair sambistas e visitantes.
Finalmente, o Cave do Guará mostrou que, com ajustes e investimentos, pode ser um bom palco para os desfiles, inclusive com a construção ali do sonhado Sambódromo de Brasília.
O que vimos naquele fim de semana foi uma demonstração de que o samba de Brasília ainda está vivo.
Agora é preciso transformar essa resistência em política permanente, organização, responsabilidade e planejamento. O poder público precisa fazer sua parte, mas as escolas também precisam assumir suas responsabilidades.
Porque carnaval não se faz apenas com subvenção e desfile. Faz-se durante todo o ano, com comunidade, trabalho, identidade e paixão pelo samba.

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