Artigo

Predador dentro de casa

Em nome da proteção de meninas e meninos, a vigilância tem de ser permanente, tanto dentro quanto fora de casa. O enfrentamento também passa pelo diálogo constante com eles.

 E quando as vítimas revelam o crime, temos de acreditar nelas, apoiá-las, fazê-las se sentirem seguras -  (crédito: bedneyimages/Freepik)
E quando as vítimas revelam o crime, temos de acreditar nelas, apoiá-las, fazê-las se sentirem seguras - (crédito: bedneyimages/Freepik)

É difícil segurar o choro quando você lê o bilhete que uma menina de 10 anos escreveu para a mãe contando que era estuprada pelo padrasto. "Me abusa desde os meus 8 anos. Eu quis falar isso porque eu tô cansada", relatou a garotinha. "Eu não te falei antes porque achava que vocês eram um casal feliz. Mas estou vendo que não estão mais felizes, ele tá te deixando triste. Por isso eu quis te falar isso em formato de carta. Leia por favor."

Para preservar a mãe, a menina sofreu em silêncio os abusos do covarde. É de abalar a nossa alma uma criança submetida a tamanha violência, por tanto tempo, sem conseguir pedir socorro. A garotinha termina o bilhete com "mãe, te amo", o que, para mim, mais pareceu um pedido de desculpa pelo que estava contando. Em entrevistas, a mulher se disse destruída por dentro e que, em nenhum momento, percebeu sinais da violência praticada pelo patife.

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Esse horror corrobora o que mostram os levantamentos sobre violência sexual contra crianças e adolescentes: a imensa maioria dos abusos é cometida por integrantes da própria família da vítima. Os predadores sexuais são pais, padrastos, mães, madrastas, irmãos, primos, tios, avós — o que torna o crime ainda mais sórdido.

Na lista de principais abusadores aparecem, também, pessoas de confiança do núcleo familiar: vizinhos, amigos, educadores, médicos, líderes religiosos. Raramente os estupradores são desconhecidos.

Há outro aspecto igualmente repulsivo nessa barbárie. Quando praticados por familiares ou parentes, os abusos, não raro, acabam encobertos. Um pacto de silêncio para "resguardar" a estrutura familiar. Também é comum as vítimas serem desacreditadas ao revelarem a violência.

Em nome da proteção de meninas e meninos, a vigilância tem de ser permanente, tanto dentro quanto fora de casa. O enfrentamento também passa pelo diálogo constante com eles. E quando as vítimas revelam o crime, temos de acreditar nelas, apoiá-las, fazê-las se sentirem seguras. É imprescindível, claro, denunciar o abusador.

Os canais são o Disque 100, WhatsApp (61) 99611-0100, site da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, aplicativo Direitos Humanos Brasil, polícias e conselhos tutelares. Proteger crianças e adolescentes contra todo tipo de violência tem de ser missão prioritária de todos nós.

 

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postado em 03/09/2026 05:00
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