ELEIÇÕES

Estilhaços no Supremo: o que o STF e uma granada têm em comum?

Em meio à pior crise do STF pós-redemocratização e conversas expostas entre ministros, o país discute atritos institucionais a 16 dias de irmos às urnas, sem discutir nenhum projeto de nação

O Supremo Tribunal Federal vive a mais grave crise institucional desde a redemocratização -  (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)
O Supremo Tribunal Federal vive a mais grave crise institucional desde a redemocratização - (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)

Em uma semana em que a maior crise institucional do Supremo Tribunal Federal, o STF, desde a redemocratização atingiu o ápice, entre tantas notícias quentes e impactantes, tive a oportunidade de ler o recém-lançado Como se proteger de uma granada - Sobrevivência em um mundo de guerras, disputas políticas e redes sociais (Editora Matrix), do jornalista Leão Serva. O livro traz uma reflexão sobre como o medo, o ódio e a impulsividade estão presentes em um mundo marcado por radicalismo e extremismos.

Como o nome do livro indica, Serva detalha a regra de ouro para se proteger dos estilhaços de uma granada. A melhor forma de tentar escapar de danos mais graves é se afastar o máximo possível e deitar-se de bruços com os pés voltados para a explosão. É fundamental também colar o peito no chão, virar o rosto para o lado oposto ao da explosão e cobrir os ouvidos e os olhos com as mãos. Abrir a boca levemente também ajuda a equalizar a pressão do ar nos ouvidos e protege os tímpanos contra a forte onda de choque. Tudo isso precisa ser feito em um intervalo médio de cinco segundos, mais ou menos o tempo que se passa entre puxar o pino, soltar a alavanca e a detonação. Muito rápido, não é?

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A analogia me parece apropriada para o momento vivido pelo Supremo. Os estilhaços provocados pela crise no STF ainda estão no ar. A duas semanas do primeiro turno das eleições, seus efeitos sobre a política brasileira são difíceis de dimensionar. Algumas consequências, porém, já podem ser percebidas.

A primeira é política. A crise tomou proporções maiores do que as esperadas pela articulação política do governo Lula. A sessão de terça-feira expôs a todo o país a cizânia existente entre homens com o mais notório saber jurídico. A ministra Cármen Lúcia ilustrou muito bem o sentimento de decepção da população em relação à mais alta Corte jurídica do país. Reconheceu também o mal-estar cívico provocado.

A exposição pública desse conflito, inclusive com a divulgação de conversas de WhatsApp que ilustram o clima de enfrentamento entre os ministros, tem um custo institucional que não desaparece quando a sessão termina. O STF exerce uma função central na democracia brasileira. Sua autoridade depende da Constituição, das decisões que profere e também da confiança que consegue preservar diante da sociedade.

Há ainda uma consequência que talvez seja menos perceptível, mas que é mais duradoura. O país está a 16 dias do primeiro turno e continua discutindo intensamente os conflitos entre instituições, enquanto temas essenciais para o futuro brasileiro ocupam espaço secundário na campanha.

Onde o Brasil pretende estar no mundo? Como acelerar o desenvolvimento econômico? Que resposta será dada à violência? Como conciliar crescimento e preservação da Amazônia? O que fazer diante das mudanças climáticas? Como ampliar o acesso à tecnologia e reduzir pobreza e desigualdade? São perguntas que deveriam ocupar o centro da disputa eleitoral. A polarização, porém, continua empurrando a política para a lógica do confronto permanente. O adversário político vira inimigo. A divergência se transforma em suspeita. A discussão sobre propostas perde espaço para a disputa em torno de pessoas e instituições.

E o país segue andando em círculos. Sem conseguir escapar dos estilhaços da polarização.

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postado em 18/09/2026 05:00
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