ARTIGO

Doces lembranças

Tive o privilégio de ser amigo de Moraes Moreira, a quem conheci e entrevistei quando veio, pela primeira vez a Brasília, já em carreira solo, para show no Clube do Choro

. -  (crédito:  Victor de Carvalho/Divulgação)
. - (crédito: Victor de Carvalho/Divulgação)

 Prazerosamente, assisti, na última sexta-feira, na Sala Martins Penna do Teatro Nacional Cláudio Santoro, ao Moraes Musical Moreira, que, depois de estrear no Teatro Castro Alves, em Salvador, cumpre turnê por algumas capitais brasileiras. Os demorados aplausos da plateia, que lotou aquele espaço, foram um demonstrativo da aprovação do espetáculo. 

Durante a encenação, por um grupo baiano, há o relato poético da trajetória do cantor, compositor e violonista nascido em Ituaçu, no interior da Bahia. Lá desenvolveu o gosto pela música ouvindo o serviço de alto-falante da pracinha. 

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Mas foi em Salvador onde ele iniciou a trajetória artística. Ali, com Galvão (de quem viria se tornar parceiro em vários clássicos da MPB), Paulinho Boca de Cantor, Pepeu Gomes e Baby Consuelo criaram o grupo Novos Baianos. 

O nome, porém, lhes foi dado em São Paulo, ao participarem do Festival da Record. Depois, se transferiram para o Rio de Janeiro, onde se estabeleceram, em 1967. Ao chegarem, se apresentaram na sessão maldita, à meia-noite, um show intitulado O desembarque dos bichos depois do dilúvio universal.

Logo depois, lançaram pela Som Livre o álbum Acabou chorare. O disco, aclamado pela crítica, trouxe composições como Besta é tu, Brasil pandeiro, O samba da minha terra, Preta Pretinha, Swing do Campo Grande e Brasileirinho, chorinho clássico de Waldir Azevedo.

Além de companheiros na música, eram amigos e chegaram a viver juntos numa espécie de comunidade hippie, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, entre 1969 e 1979. Depois, cada um tomou o seu caminho, e Moraes foi quem obteve maior sucesso.

Ele, inclusive, lançou A história dos novos baianos e outros versos, livro de cordel que focaliza a carreira da trupe. Um dos versos diz: "Foi deste contexto/ Que uma tribo paz e amor/ Tramou a sua viagem/ O sonho como pretexto/ E no lugar do temor/ Talento e muita coragem/ A luta não foi em vão/ Contrariando o regime/ Vingaram sim nossos planos/ Com cara de campeão/ Em campo entrou um bom time/ Chamado Novos Baianos". À época o Brasil vivia tempos obscuros, sob o jugo da ditadura militar.

Moraes, é bom que se diga, gostava muito de futebol e era torcedor do Flamengo, daqueles de ir ao Maracanã assistir a jogos do seu time do coração. Tive o privilégio de ser amigo dele, a quem conheci e entrevistei quando veio, pela primeira vez a Brasília, já em carreira solo, para show no Clube do Choro.

Na oportunidade, ele me presenteou com o citado livro de cordel, que, depois de ler, guardei na pequena biblioteca que mantenho em um dos quartos do meu apartamento, na Asa Norte.

Certa vez, numa das minhas idas ao Rio de Janeiro, a convite dele fui até o bairro da Gávea para uma visita ao ateliê que mantinha, onde continuava a desenvolver seu ofício. Lá, tomei conhecimento do que vinha produzindo. Como partiu para outra dimensão em 13 de abril de 2020, possivelmente não conseguiu fazer o lançamento.

 

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postado em 29/09/2026 05:00
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