
Cristiane Azevedo — diretora Superintendente do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN)
A crise climática tem levado governos, organismos multilaterais, empresas e instituições filantrópicas a mobilizarem volumes crescentes de recursos. Em 2024, os fluxos globais de financiamento climático ultrapassaram US$ 2 trilhões. Para 2025, foram estimados em US$ 2,1 trilhões. O valor é expressivo, mas ainda distante dos cerca de US$ 7,8 trilhões anuais que, segundo a Climate Policy Initiative, serão necessários até 2030 e US$ 9 trilhões anuais entre 2031 e 2035.
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O desafio não se resume a ampliar o financiamento. É preciso discutir como esses recursos circulam, quem participa das decisões e quais organizações têm condições de acessá-los. Nesse contexto, uma pergunta continua recebendo menos atenção: quem já vinha construindo respostas para a crise climática antes mesmo de ela ocupar o centro da agenda internacional? A resposta está nos territórios.
Povos indígenas, comunidades tradicionais, agricultores familiares, movimentos sociais e organizações locais desenvolvem, há gerações, formas de produzir, conservar e viver baseadas no conhecimento dos territórios. Esse conhecimento não é complementar à ação climática. Ele constitui parte essencial das respostas para proteger a biodiversidade, reduzir vulnerabilidades e ampliar a capacidade de adaptação.
Ao longo de mais de três décadas, o Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), por meio do Fundo Ecos, acompanha e apoia iniciativas dessa natureza. O Fundo já destinou mais de US$ 31 milhões a mais de mil projetos de organizações de base comunitária, especialmente no Cerrado, na Amazônia e na Caatinga.
Essa trajetória mostra que as transformações mais consistentes raramente começam com modelos concebidos a distância. Elas surgem da combinação entre conhecimento territorial, organização social e recursos adequados às realidades locais.
O caminho dos recursos também importa. Embora esses instrumentos tenham sua importância, o acúmulo de exigências produz uma contradição: as organizações mais próximas dos problemas e das soluções são frequentemente aquelas que enfrentam maiores dificuldades para acessar o financiamento.
As diretrizes da OCDE afirmam que o financiamento deve ser flexível, previsível e de longo prazo, mas estima-se que menos de 10% dos fundos climáticos estejam dedicados ao desenvolvimento localmente liderado. É preciso rever a maneira como riscos, capacidades, responsabilidades são compreendidos e reconhecer o protagonismo das organizações e comunidades na construção das soluções.
Relações construídas ao longo do tempo permitem compreender os contextos dos projetos, fortalecer as organizações e ajustar mecanismos de acompanhamento, transparência e prestação de contas às diferentes realidades. Isso não significa abandonar critérios, controles ou procedimentos de integridade, mas construir mecanismos proporcionais aos riscos e reconhecer capacidades que nem sempre aparecem em documentos formais. A responsabilidade deixa de ser uma obrigação administrativa e passa a ser um compromisso compartilhado, baseado em objetivos comuns e diálogo.
Existe uma infraestrutura capaz de fazer os recursos chegarem a quem as desenvolve. Fundos independentes e de justiça socioambiental conectam recursos a organizações e iniciativas locais. No Brasil, a Rede Comuá reúne 20 fundos e organizações doadoras independentes. Um mapeamento demonstrou que 14 organizações da Rede haviam doado quase R$ 472 milhões até 2021.
No âmbito internacional, a Alianza Socioambiental Fondos del Sur articula fundos socioambientais do Sul Global. Em 2024, seus membros destinaram cerca de US$ 14 milhões a organizações de base, povos indígenas, instâncias de governança local e empreendimentos comunitários.
A participação do ISPN e do Fundo Ecos nessas redes integra o fortalecimento dos fundos independentes de justiça socioambiental e de sistemas de financiamento mais acessíveis, diversos e próximos dos territórios. Fazer mais recursos chegarem aos territórios por meio desses fundos não significa apenas ampliar a capilaridade ou a eficiência do financiamento climático. Significa também transformar a maneira como circulam recursos, decisões e poder.
Quando organizações próximas aos territórios participam da definição de prioridades e dispõem de recursos flexíveis para apoiar soluções construídas localmente, comunidades, povos indígenas e organizações de base deixam de ser apenas executores de agendas definidas externamente. Ampliam sua capacidade de decidir, propor e sustentar respostas aos desafios socioambientais.
Democratizar o financiamento climático é ampliar quem pode imaginar, propor e participar das decisões. Fazer com que recursos e poder de decisão estejam mais próximos daqueles que vivem, conhecem e cuidam dos territórios contribui para construir respostas mais justas, fortalecer a democracia e transformar em realidade aquilo que ainda parece impossível.
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