
Um estudo apresentado nesta semana no 74º Congresso Brasileiro de Coloproctologia, em Balneário Camboriú (SC), traz um dado que deveria estar em qualquer conversa sobre saúde pública: o número de pessoas com doenças inflamatórias intestinais no Brasil cresceu cinco vezes entre 2012 e 2025, passando de 30 para 158 casos por 100 mil habitantes. A doença de Crohn e a retocolite ulcerativa — enfermidades autoimunes crônicas, sem cura, com tratamento que pode custar até R$ 500 mil por paciente ao ano — eram consideradas raras até por volta de 2015. Agora, pesquisadores projetam que se tornarão problemas de saúde pública comparável ao diabetes e à hipertensão a partir de 2040.
As causas são multifatoriais, como ressaltam os próprios pesquisadores da Sociedade Brasileira de Coloproctologia. Há componente genético, há influência da poluição. Mas há também, de forma cada vez mais evidente, o fator alimentar. Os ultraprocessados, com seus conservantes, corantes, espessantes e aditivos que permitem que um pão de forma dure três meses na prateleira sem mofar, aparecem consistentemente nos estudos como elementos que induzem processos inflamatórios. O intestino, mais do que qualquer outro órgão, parece sensível a esse conjunto de substâncias para as quais o organismo humano simplesmente não foi preparado.
Fique por dentro das notícias que importam para você!
O problema é que essa dieta virou norma. O Brasil, que tinha no arroz com feijão uma das combinações alimentares mais equilibradas do mundo — proteína completa, fibras, baixo custo —, assiste à erosão desse padrão faz décadas. O ultraprocessado chegou pela conveniência, pelo preço, pela publicidade agressiva e pela transformação do tempo de cozinhar em luxo que nem todos têm. A tabela nutricional obrigatória nos rótulos, a famosa "lupinha", foi implementada pela Anvisa e se provou um avanço real, que deu ao consumidor informação que antes estava escondida. Mas a informação não muda sozinha o ambiente que empurra as pessoas para escolhas ruins.
O que muda esse ambiente é política pública. Tributação diferenciada sobre ultraprocessados, subsídios para alimentos in natura, regulação mais dura da publicidade dirigida a crianças, merenda escolar com comida de verdade. São medidas conhecidas, discutidas há anos, implementadas de forma tímida e fragmentada. A projeção dos pesquisadores é de que, em 2035, o número de casos de doenças inflamatórias intestinais chegue a 264 por 100 mil habitantes — 67% a mais do que hoje. Esse número tem um custo humano e tem um custo fiscal.
O corpo não mente, e os números do estudo são claros: uma doença que era rara há 10 anos está a caminho de se tornar problema de saúde pública em menos de duas décadas. São pacientes diagnosticados jovens, que precisarão de acompanhamento por décadas. Prevenir é mais barato do que tratar. E prevenir, nesse caso, começa por levar a sério o que o brasileiro está colocando no prato.
Saiba Mais
Opinião
Opinião
Opinião