Por Giovanni Bevilaqua, Doutor em Economia pela Universidade de Brasília
Nos últimos dados do Banco Central, a inadimplência das empresas voltou a subir: 3,2% na carteira ampliada, um pouco mais entre as menores. Em pesquisas aplicadas trimestralmente com pequenos negócios em todo o país, 28% já declaram ter alguma dívida em atraso, e mais da metade de quem tem compromisso em aberto vê o pagamento consumir 30% ou mais dos custos mensais do negócio. Não são números que se escondem atrás de eufemismo. É gente que abre a loja de manhã sabendo que uma parcela vai vencer antes do fechamento de caixa.
Dito isso, sem meio-termo: esse retrato não é sinônimo de fracasso pessoal. É sinônimo de um sistema que ainda trata o pequeno empreendedor como um risco a ser precificado, quando deveria tratá-lo como um agente a ser conhecido.
Explico a diferença. Precificar risco é o que um banco faz quando olha para um CNPJ recém-aberto e enxerga apenas ausência de histórico: sem garantia, sem colateral e sem grade de score, portanto caro ou fechado. É o motivo pelo qual a taxa média de juros no crédito livre para pessoa jurídica segue na casa dos 24% ao ano, mesmo quando a Selic dá sinais de trégua. Conhecer, por outro lado, é reconhecer que aquele mesmo CNPJ tem uma trajetória territorial e uma reputação construída com fornecedores e clientes, um capital social que nenhuma nota de crédito tradicional capta, mas que vale alguma coisa na hora de prever se o negócio vai honrar um compromisso.
Essa distinção não é retórica, ela muda o desenho de política pública. Um Estado que só sabe punir inadimplência tem uma ferramenta: cobrança, que no limite termina em negativação e execução. Um Estado que sabe reconhecer trajetória tem um leque bem mais largo. Pode diagnosticar antes de o atraso virar protesto, ou reorganizar prazo antes de empurrar mais crédito. E pode sentar o empreendedor e o banco na mesma mesa com dados na mão, em vez de dívida vencida em cobrança, sem tratar quem está atrasado como alguém que fracassou moralmente. Na maior parte dos casos que a pesquisa capta, o que pesa no caixa não é imprudência: é custo de insumo subindo enquanto o cliente escasseia e o juro caro corrói uma margem que já nasceu fina.
Aqui é onde a pauta deixa de ser só de crise e vira pauta de desenvolvimento. O Brasil tem hoje mais de 24 milhões de pequenos negócios. Cada um desses CNPJs é, ao mesmo tempo, unidade produtiva e projeto de vida de alguém, muitas vezes o único ativo que uma família teve chance de construir. Tratar o endividamento desse universo como problema técnico de cobrança é desperdiçar a oportunidade de tratá-lo como o que ele realmente é: um ponto de alavancagem para inclusão econômica em escala continental. Um pequeno negócio que sai de uma reestruturação de dívida bem-feita não volta ao ponto de partida: volta mais forte, porque atravessou um processo que o obrigou a organizar o próprio caixa e entender a estrutura de custo antes de negociar de uma posição menos frágil.
Já existem iniciativas nascendo com esse espírito, dentro e fora do poder público: programas que combinam diagnóstico prévio, reorganização de passivo e crédito responsável numa sequência pensada, em vez de empurrar linha de financiamento para quem ainda não sabe quanto deve nem para quem deve. É um desenho mais trabalhoso do que simplesmente abrir uma linha de crédito emergencial: exige montar protocolo, capacitar gente e negociar condição de verdade com o banco, não apenas anunciar. Mas é o tipo de trabalho que, historicamente, separa política pública que resolve de política pública que só comunica.
Isso não é ingenuidade otimista. É reconhecer que o mesmo dado que assusta, quase três em cada 10 pequenos negócios em atraso, é também o dado que permite agir com precisão, porque hoje sabemos exatamente que porte e que setor está mais exposto. Antes, o Estado enxergava o pequeno negócio endividado só quando ele já tinha fechado. Agora existe instrumento para enxergar antes, e para responder com política de reconhecimento, não com política de sanção.
O problema já está posto, e nenhuma nota otimista o apaga. O que ainda está em aberto é o tipo de resposta: tratar o pequeno empreendedor endividado como estatística de risco a ser gerida, ou como sujeito econômico a ser reconhecido e, a partir desse reconhecimento, reconstruído.
Saiba Mais
-
Opinião O retorno de um inimigo derrotado
-
Opinião Alerta para a saúde mental
-
Opinião Não terceirize sua confiança, informe-se com qualidade!
-
Opinião Saúde nas redes sociais: até onde a influência pode substituir a evidência?
-
Opinião Enfrentar o problema e construir soluções
-
Opinião Maria Elisa Costa, a irmã de Brasília
