O caso é grave e precisa ser dito com clareza. Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, indicam que o banqueiro pediu reiteradamente ao ministro Alexandre de Moraes que acionasse a cúpula da Polícia Federal e do Ministério Público para conter o avanço das investigações contra sua instituição financeira. Os diálogos se estenderam até poucas horas antes da primeira prisão de Vorcaro, em novembro de 2025.
Os investigadores recuperaram as mensagens enviadas em imagens pelo banqueiro, mas não as respostas do ministro — os dois utilizavam o recurso de visualização única do WhatsApp, que apaga automaticamente as imagens após a abertura. A dúvida instalada é séria demais para ser ignorada. No início da noite de ontem, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, protocolou o pedido de anulação das provas colhidas pela Polícia Federal.
A decisão do ministro André Mendonça de levar o caso ao plenário do STF é correta e bem-vinda. Questões dessa magnitude não podem ser resolvidas por um único ministro, ainda mais quando o envolvido é um colega de Corte. O plenário é o foro adequado, e sua atuação, neste caso, é também uma demonstração de que a instituição é capaz de se autorregular. Se há inocência, que seja demonstrada com transparência e perante os pares. Se há irregularidade, que seja apurada com o mesmo rigor que a Corte aplica a todos os demais.
O que não pode acontecer é o que já começa a se desenhar nos bastidores: uma guerra interna entre ministros, com vazamentos estratégicos, movimentações de bastidor e posicionamentos públicos que transformem uma investigação legítima em um racha institucional. O STF já chega a este momento fragilizado. Está incompleto desde a saída de Luís Roberto Barroso, em outubro, operando há quase um ano com uma cadeira a menos em sua composição. Nos últimos anos, a Corte acumulou visibilidade e desgaste em igual medida, tornando-se alvo de críticas de espectros políticos opostos. Adicionar uma crise interna de proporções públicas a esse quadro é inconveniente e irresponsável.
O Brasil vive um período de instabilidade política que vai se intensificar até outubro. As eleições presidenciais já começam a contaminar o ambiente institucional, e cada movimento das grandes instituições é lido, interpretado e disputado pelo campo eleitoral. Nesse contexto, um STF rachado publicamente é combustível para quem tem interesse em desestabilizar as próprias bases da democracia brasileira. A Corte é, acima de tudo, guardiã da normalidade institucional do país, e esse papel não pode ser abandonado no exato momento em que mais é exigido.
O apelo que se faz é simples: que os fatos sejam apurados com rigor, que Moraes possa se explicar com transparência, e que o STF conduza esse processo com a sobriedade que a gravidade do momento exige. Instituições se constroem ao longo de décadas e se destroem em semanas. Os ritos que garantem a credibilidade da Corte, como o contraditório, a ampla defesa, o julgamento colegiado, e a publicidade dos atos existem precisamente para momentos como este. Respeitá-los não é defender ninguém. É defender a única coisa que, no fim, protege a todos.
