Por Mozart Neves Ramos , titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira da USP de Ribeirão Preto e professor emérito da UFPE
Nesses meus 35 anos dedicados às políticas públicas de educação, não tenho dúvidas em afirmar que o índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) foi o indicador que mais mobilizou o país no campo da educação — um número simples que varia de 0 a 10 e que dá uma boa radiografia do desempenho educacional de escolas, municípios e estados, e, naturalmente, do próprio país. O Ideb é calculado pela multiplicação da nota média em língua portuguesa (LP) e matemática (MAT), extraída do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), pela taxa de aprovação fluxo escolar. Assim, torna-se possível calcular o Ideb dos anos iniciais e finais do ensino fundamental e do ensino médio.
A recente divulgação do Ideb — relativa aos resultados de 2025 — mostrou que o país avançou bastante nos anos iniciais. Pode-se dizer assim que a chamada recomposição de aprendizagem na pós-pandemia, tanto em LP como em MAT, deu bons frutos para essa etapa escolar. Boa parte dos municípios ultrapassou os resultados de 2019 (anteriores à pandemia) — algo que não havia acontecido em 2023. O avanço em MAT, de 2023 para 2025, foi de 9 pontos no Saeb — parece que o país despertou para a crise da aprendizagem nessa disciplina. Já os avanços para os anos finais e o ensino médio foram muito discretos — quase uma estagnação.
O Todos pela Educação, em seu relatório relativo aos resultados de 2025 do Saeb e do Ideb, mostrou claramente que o país avançou ao longo da série histórica de 2005 para 2025. Nesse período, o Ideb da rede pública passou de 3,6 para 6,1 nos anos iniciais; de 3,2 para 5,0 nos anos finais; e de 3,1 para 4,3 no ensino médio. Esse crescimento nas três etapas foi principalmente em decorrência do fluxo escolar — taxa de aprovação, com menos reprovações e mais estudantes progredindo. Nos anos iniciais também se verificou um crescimento importante pela melhora na aprendizagem.
Apesar de seu efeito mobilizador, o Ideb tem suas limitações. Por exemplo, não leva em conta os alunos que estão fora da escola. Outra limitação decorre do fato de não levar também em consideração o nível socioeconômico (NSE), que pode explicar até 40% da desigualdade na aprendizagem. Ainda não temos os dados de 2025 para o NSE, mas, olhando para os de 2023, 52% dos alunos de alto NSE têm desempenho escolar adequado em matemática, em contraste com os 32% dos alunos de baixo NSE.
Não obstante tais limitações, o Ideb, como disse, tem um papel mobilizador relevante na educação brasileira — mas o futuro não está nesse indicador, e sim no aprendizado adequado em LP e em MAT, que corresponde a um número mínimo de pontos que o aluno precisa ter no Saeb nessas duas disciplinas. Por exemplo, para os Anos Iniciais do EF, isso corresponde a 200 pontos em LP e 225 pontos em MAT.
O aprendizado adequado tem também um importante papel para o financiamento da educação — considerando o ICMS Educacional (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviço) e o Valor Ano Aluno Resultado (VAAR) do Fundeb. Por outro lado, pelo trabalho da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira, percebemos claramente que a grande maioria dos gestores municipais ainda não sabe nem o que significa, em termos de pontos no Saeb, esse aprendizado adequado, nem aquilo que seus alunos precisam dominar para alcançar tal aprendizado.
Ainda de acordo com o Todos pela Educação, o encerramento desse ciclo exige uma modernização do Saeb e do Ideb, pelo que concordo plenamente. O país precisa de avaliações mais alinhadas à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), capazes de medir habilidades mais complexas e mais conectadas às demandas do mundo atual.
As matrizes do Saeb usadas nas avaliações em curso não captam esse novo ambiente disruptivo que estamos vivendo — olham para o retrovisor, e não para onde aponta o farol. Uma das mais importantes avaliações internacionais é o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), que já leva em consideração em suas avaliações competências como pensamento crítico, criatividade e pensamento computacional. A maneira como vamos avaliar nossos alunos a partir do advento da inteligência artificial (IA) vai mudar substancialmente. O país precisa urgentemente olhar para esse novo ambiente e preparar adequadamente nossos estudantes.
Entendo ainda que, apesar dessa nova fase de avaliar a qualidade do ensino com base nas novas habilidades para viver no século 21, não podemos "jogar o bebê fora junto com a água do banho". Aqui me refiro ao Ideb. O país não pode colocá-lo em segundo plano, ou, ainda pior, esquecer seu papel mobilizador junto à sociedade. Ele precisa, sim, ser aperfeiçoado, mas não esquecido. Isso importa em definir novas metas para cada uma das três etapas escolares — pois ainda estamos usando as de 2021.
