Alberto Almeida — cientista político
A campanha eleitoral começou, e já se vê propostas para as mulheres, pobres, negros, pessoas com deficiência e toda sorte de grupos considerados ou minoritários ou desfavorecidos. O que não se vê são discursos e propostas para um grande contingente de eleitores que tem uma vida muito difícil, mas que é maioria: aqueles que se identificam como pardos. Não é verdade que classificá-los como negros resolve esse problema, porque para o brasileiro negro é sinônimo de preto. Assim, quando um discurso é feito em uma campanha se referindo aos negros, os pardos não se consideram parte desse grupo.
A Pesquisa Social Brasileira (Pesb), que coordenei em duas edições separadas por 20 anos — 2002 e 2022-23 —, demonstrou com dados reais, respostas de amostras representativas da população brasileira, que nós nos escurecemos, que os pardos e pretos aumentaram em prejuízo dos brancos, e que quem é pardo se considera assim por causa de sua cor de pele e não por conta de seus antepassados. A propósito, houve em 20 anos uma redução da proporção de brasileiros, de 20% para 10%, que dizem serem seus antepassados o motivo que os faz se considerar da cor e raça que têm. Ou seja, o pilar fundamental do conceito de raça — um continente originário no qual a origem de cada um de nós pode ser ancorada — não é importante para os brasileiros. Adicionalmente, a grande maioria de nossa população considera que seus antepassados vieram do Brasil e de indígenas que aqui estavam antes da chegada dos portugueses.
Foi uma grande vitória de todos aqueles que combatem o racismo e defendem mais proteção e direitos para os negros o escurecimento dos brasileiros. Um caso notório e público foi o do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino que, quando se candidatou a governador do Maranhão pela primeira vez, registrou em sua ficha no Tribunal Regional Eleitoral que era branco e, na segunda disputa, na qual foi reeleito, escreveu que era pardo. Paralelamente a ele, muitos pardos de 2002 passaram a se considerar pretos 20 anos mais tarde. Esse foi o escurecimento.
Por outro lado, a mesma pesquisa revelou que as visões dos brasileiros sobre quem é branco piorou, sobre os pretos melhorou e acerca dos pardos não mudou. A piora da imagem dos brancos e melhora dos pretos também foi resultado da militância. Ela vem batendo na tecla de que os brancos são racistas e os negros são desfavorecidos pelos brancos e pela sociedade. Isto é, as pesquisas detectaram que o valor simbólico de ser branco diminuiu e de ser preto aumentou, mais uma grande vitória de todos aqueles que combatem o racismo. Os pardos, por sua vez, vale repetir, ficaram no limbo. Sabendo desse resultado, talvez possa se dizer que ele não surpreende; afinal, não houve nenhum movimento social ou político que defendesse os pardos, não houve e parece continuar não existindo.
Eis aqui, tudo indica, uma oportunidade eleitoral: falar com os pardos e defendê-los. O pardo não se considera nem branco nem preto, não acha que seus antepassados vieram da África e afirma que sua raça é definida em função de sua cor de pele. Ademais, segundo a pesquisa, ele é o menos honesto e o menos inteligente quando comparado tanto com brancos como com pretos. Até agora, no Brasil, os movimentos que defendem os interesses dos negros podem, inadvertidamente, ter deixado de lado os pardos, posto que o termo negro está associado a preto, e a raça é, para nós, definida em função da cor de pele e não da ancestralidade.
Políticos e líderes de movimentos sociais são os melhores marqueteiros de si próprios, são especialistas em comunicação e na detecção de oportunidades de voto e apoio social. Diante disso, em que pese o sucesso recente de algumas iniciativas nas redes sociais, surpreende que não exista no Brasil um movimento pardo ou a favor da parditude e discursos eleitorais e propostas governamentais que sejam direcionadas especificamente aos pardos.
Nota do autor: dados tirados do livro A cabeça do brasileiro, que aborda as principais questões tratadas em mais de 20 anos de pesquisas sobre o comportamento do brasileiro.
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