Artigo

Nomear o poder das mulheres políticas

A ausência de mulheres nos espaços decisórios repercute numa igual ausência no repertório verbal. Não sendo nomeadas, as mulheres plurais deixam de existir no imaginário e na linguagem

Juliana Romão gestora de narrativas, mestra em comunicação pela UnB e autora do livro “A Linguagem das Mulheres Políticas - desmecanizar o pensamento é emancipar a fala pública”

"Este deve ser o bosque onde as coisas não têm nome", comenta Alice, numa das passagens mais simbólicas do clássico Através do espelho, de Lewis Carroll. É que as coisas, pessoas e conceitos só ganham um lugar social quando inseridas numa cultura, quando são nomeadas e, assim, passam a existir. 

As nomenclaturas organizam e dão sentido à realidade, moldando a forma como enxergamos o nosso entorno. A pesquisa Imaginário de Poder das Mulheres Brasileiras, conduzida pelo Instituto Clarice, revela esse movimento: 96% das pessoas entrevistadas sabem reconhecer alguém que se expressa de maneira poderosa, mas 40% não conseguem citar o nome de uma mulher nessa condição de comando. 

É sintomático, o imaginário social ainda não associa o feminino à categoria poder. Os dados mostram que os ambientes vistos como naturais para as mulheres são saúde (38%), educação (35%) e família (32%), enquanto os percebidos com estranhamento envolvem finanças e negócios (33%), esportes (28%), tecnologia e inovação (28) e o grau máximo, a política (42%). 

Não é um resultado sem sentido. Estranhamos o que não vemos com frequência. A sensação de inadequação do feminino aos espaços de mais evidente poder reflete a prática cotidiana. Apesar dos avanços, ainda é baixa a presença e a permanência delas no comando, muitas vezes num paradoxal lugar de poder com pouco poder. 

Quase três décadas após a adoção da lei de cotas eleitorais para mulheres, o Brasil ainda registra apenas cerca de 18% delas na Câmara dos Deputados — a segunda pior taxa do G20 e a 133ª posição no ranking mundial de participação feminina no Parlamento, segundo levantamento da União Interparlamentar (IPU), com dados da ONU Mulheres. 

As barreiras são múltiplas e se agravam quando somadas às dimensões de raça, território e diversidade. O caminho da mudança é longo, mas conhecemos a trilha: é necessário uma legislação inequivocamente orientada a promover a mudança cultural e favorecer a equidade de gênero e raça na política; também uma Corte firme, capaz de fazer cumprir as normas; além de estruturas partidárias mais democráticas e a forte atuação dos movimentos de mulheres. E uma ação adicional menos evidente: é preciso empurrar a engrenagem da língua para incluir e visibilizar as mulheres em sua pluralidade. E torná-las cada vez mais conscientes da própria capacidade de expressão. 

As palavras têm uma poderosa função social: elas dão, tiram e emprestam na medida e forma como são inseridas ou excluídas do nosso vocabulário. A ausência nos espaços decisórios repercute numa igual ausência no repertório verbal. Não sendo nomeadas, as mulheres plurais deixam de existir no imaginário e na linguagem, sendo engolidas como anexo das categorias masculinas. 

Dois exemplos. O nome oficial da Câmara Federal no Brasil é Câmara dos Deputados, no masculino, como se fosse exclusiva dos homens parlamentares. As mulheres parecem não existir, sendo compreendidas dentro da classificação "deputados". No Chile, os movimentos de mulheres e de deputadas mobilizaram a significativa mudança da nomenclatura para a atual Cámara de Diputadas y Diputados. Não é apenas a troca do nome, mas a ressignificação da imagem, da (auto)percepção social. 

Somente a partir de outubro de 2025, o Supremo Tribunal Federal (STF) alterou seu sistema eletrônico de andamentos processuais para flexionar o gênero e adotar a palavra relatorA quando a responsável pelo caso for uma ministra da Corte. Até então, usava-se "relator" indistintamente, mesmo em processos tocados pela ministra Cármen Lúcia, única integrante mulher do tribunal atualmente. 

Nenhuma das mudanças ocorreu sem pressão. Houve debate, articulação e muito discurso feminino qualificado até deslocar a engrenagem da língua em direção à democracia e à equidade. A língua não é machista, sexista, autoritária, sensível ou generosa. Ela é o que fazemos dela. 

 

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