Há seis décadas, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro faz algo que vai muito além de exibir filmes: ele ajuda o país a se olhar no espelho. Em um Brasil frequentemente atravessado por crises políticas, econômicas e identitárias, o Cine Brasília permanece como um raro espaço em que diferentes vozes, regiões, gerações e visões de mundo se encontram para narrar quem somos, ou quem poderíamos ser.
Criado em 1965, em plena ditadura militar, o festival sobreviveu a censuras, cortes de recursos, mudanças tecnológicas e transformações profundas no modo de consumir audiovisual. Permaneceu porque entendeu, desde cedo, que o cinema brasileiro nunca foi apenas entretenimento: é memória, documento, debate público e afirmação de identidades.
Os vencedores da 59ª edição reafirmam essa vocação. O delicado Se eu fosse vivo… vivia, de André Novais Oliveira, coloca a velhice no centro da narrativa e desafia o etarismo. Pequenas tragédias, de Daniel Nolasco, amplia a presença do cinema queer e evidencia como políticas públicas de descentralização permitem que histórias nascidas longe dos grandes centros encontrem público e reconhecimento. Já Tudo é tempo, de Marcos Guttmann, acompanha brasileiros unidos pelo ato de votar, lembrando, às vésperas das eleições, que a democracia também se constrói por meio das narrativas que compartilhamos.
Em comum, esses filmes têm algo raro em tempos de algoritmos e franquias globais: eles falam do Brasil real. Não do país simplificado pelos estereótipos ou pela lógica do mercado internacional, mas do Brasil complexo, contraditório, afetivo, político e plural.
Por isso, defender a continuidade do Festival de Brasília é proteger um patrimônio simbólico do país. É garantir que novas gerações de cineastas continuem encontrando espaço para existir. É também reafirmar a importância de políticas públicas que financiam a produção audiovisual e democratizam o acesso à criação.
Mas há um ponto que merece reflexão. O entusiasmo que o cinema brasileiro desperta quando um filme disputa o Oscar ou alcança repercussão internacional é legítimo e motivo de orgulho. O problema é quando esse interesse dura apenas o tempo de uma campanha de premiação ou se limita a poucas obras transformadas em fenômenos.
A sobrevivência do cinema brasileiro depende, sobretudo, do espectador comum, que escolhe um filme nacional no streaming, compra ingresso para uma produção independente, frequenta festivais, acompanha curtas-metragens, documentários e obras que, talvez, jamais apareçam entre os assuntos mais comentados das redes sociais. É nesse gesto cotidiano que se forma uma cultura audiovisual sólida.
O Festival de Brasília continua existindo porque artistas, gestores públicos e espectadores entenderam que o cinema é uma construção coletiva. O desafio, agora, é ampliar essa consciência para além dos dias de festa e dos holofotes internacionais. O Brasil produz centenas de filmes todos os anos e muitos deles falam de nós com uma profundidade que nenhuma grande franquia estrangeira seria capaz de alcançar. Prestigiar esse cinema é uma oportunidade de conhecer melhor o país em que vivemos e, talvez, de reconhecer, na tela, histórias que também são nossas.
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