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A conta do envelhecimento não cabe só na Previdência

É incompleta qualquer política de longevidade que proteja a renda de quem envelhece, mas ignore o tempo, a renda e o futuro de quem cuida

. -  (crédito:  Divulgação)
. - (crédito: Divulgação)

Gustavo Pessoa — economista e professor da FGV-SP

O Dia Internacional das Pessoas Idosas, em 1º de outubro, chama a atenção para uma transformação que já está em curso no Brasil: o Censo de 2022, do IBGE, registrou 32,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, equivalentes a 15,8% da população e 56% a mais que em 2010. Embora viver mais seja uma conquista, nossa organização econômica ainda não se adaptou inteiramente a ela, e o debate costuma se concentrar na Previdência e na saúde, deixando em segundo plano uma conta que chega todos os dias às famílias, a do cuidado.

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Uma família pode ter planejado a aposentadoria, quitado a casa e organizado suas despesas e, ainda assim, precisar refazer o orçamento quando alguém passa a necessitar de ajuda nas atividades cotidianas. Contratar um cuidador significa assumir uma nova despesa; quando um filho, cônjuge ou outro parente assume essa função, o custo não desaparece, apenas muda de forma. São horas que deixam de ser destinadas ao trabalho, ao estudo ou ao descanso e que, em alguns casos, exigem reduzir a jornada, recusar uma promoção ou deixar o emprego. O orçamento pode, assim, ficar pressionado dos dois lados, com o aumento dos gastos e a redução da renda de quem passa a cuidar.

Como cuidado não remunerado também tem custo, seus efeitos podem atravessar gerações: cuidar dos pais hoje pode significar ganhar e poupar menos para a própria velhice amanhã. É por isso que a economia do envelhecimento precisa ir além da pergunta sobre quanto acumular para a aposentadoria e considerar, além do tempo que viveremos, a intensidade e a duração de uma eventual necessidade de apoio. Ter renda para pagar as despesas habituais não garante que haverá alguém disponível para prestar esse apoio, nem que será possível financiá-lo pelo tempo necessário.

A distribuição desse impacto é desigual, como mostram as estimativas da Organização Internacional do Trabalho (OIT): em 2023, 708 milhões de mulheres estavam fora da força de trabalho no mundo por responsabilidades de cuidado. Embora o dado inclua crianças e outros familiares, e não apenas pessoas idosas, ele revela a dimensão econômica de um trabalho frequentemente tratado como recurso ilimitado dentro das casas. Pressupor que sempre haverá um familiar disponível para cuidar significa ignorar as escolhas e as perdas de renda que essa responsabilidade pode impor.

No Brasil, a Política Nacional de Cuidados, instituída em 2024, e o Plano Nacional de Cuidados começaram a incorporar essa questão às políticas públicas ao reconhecer tanto quem necessita de apoio quanto quem cuida. A oferta de serviços e a conciliação entre trabalho remunerado, educação e responsabilidades familiares estão entre os eixos do plano, mas esse avanço institucional precisa se traduzir em atendimento, com financiamento contínuo, profissionais qualificados e avaliação de resultados.

Isso exige articular saúde e assistência social com moradias adaptadas e serviços que ajudem a preservar a autonomia, além de desenvolver tecnologias, seguros e produtos financeiros adequados às diferentes necessidades das famílias. As empresas também terão de rever a organização do trabalho para que seus funcionários consigam conciliar a carreira com o cuidado de familiares, reconhecendo que essa responsabilidade afeta a vida profissional e não pode ser resolvida apenas dentro de casa.

Uma população mais velha também cria oportunidades econômicas ao ampliar a demanda por produtos, serviços e soluções de moradia e mobilidade. As pessoas idosas, por sua vez, continuam trabalhando, empreendendo, cuidando de outras pessoas e contribuindo para suas comunidades, de modo que confundir envelhecimento com dependência seria um erro econômico e humano.

O desafio é decidir como uma sociedade mais longeva distribuirá o custo do cuidado quando ele for necessário, sem deixar que essa conta recaia silenciosamente sobre quem abre mão de renda e tempo para cuidar. Planejar a velhice exige financiar os anos adicionais de vida e criar condições para vivê-los com autonomia, o que torna incompleta qualquer política de longevidade que proteja a renda de quem envelhece, mas ignore o tempo, a renda e o futuro de quem cuida.

 

 

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Por Opinião
postado em 01/10/2026 05:00
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