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Desalento eleitoral: brasiliense acompanha a campanha de 2026 de longe

O clima de mobilização das campanhas eleitorais parece não ter contagiado o brasiliense. O maior grupo enxerga a conversa política como fonte de incômodo e insatisfação

58% do eleitorado do DF teve contato com a campanha pelo horário gratuito de propaganda eleitoral  -  (crédito: Caio Gomez)
58% do eleitorado do DF teve contato com a campanha pelo horário gratuito de propaganda eleitoral - (crédito: Caio Gomez)

Larissa Marques, Fred Bertholini, Lucio Rennó — pesquisadores do Observatório de Políticas Públicas do Distrito Federal (ObservaDF)

A cada quatro anos, o calendário democrático convoca os eleitores do Distrito Federal às urnas para escolher os cargos distritais e federais. Neste ano de 2026, o eleitorado do DF irá às urnas para escolher seus representantes para os cargos de presidente da República, governador, senador, deputado federal e distrital. O dia da votação, no entanto, é apenas o desfecho de um período mais longo. Nos meses anteriores, partidos e cidadãos costumam ocupar as ruas com comícios, carreatas, panfletagens e reuniões, além de exibir camisetas e adesivos de seus candidatos. Esses rituais fazem parte da vida democrática e cumprem uma função relevante: mantêm o eleitor informado e estimulam o comparecimento no dia do pleito. Neste ano, porém, o clima de mobilização parece não ter contagiado o brasiliense.

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Para mapear o envolvimento do eleitorado local com esses ritos, o Observatório de Políticas Públicas do Distrito Federal (ObservaDF) dedicou seu mais recente relatório à participação na corrida eleitoral de 2026. O estudo reuniu indicadores sobre a frequência do consumo de noticiário político, o contato presencial com atividades de partidos, candidatos e campanhas, o interesse declarado pela disputa e, por fim, os sentimentos que o cenário atual desperta na população que vota no DF.

Embora 73% dos eleitores do DF digam ter contato com notícias sobre política diariamente ou algumas vezes por semana, apenas 41% afirma ter muito ou algum interesse pela campanha eleitoral de 2026. O mesmo percentual declara acompanhar a disputa muito ou razoavelmente de perto, enquanto uma fatia expressiva, de 26%, diz não a acompanhar.

Para avaliar o engajamento, a pesquisa listou ações tradicionalmente adotadas por eleitores e as dividiu em dois grupos. O primeiro reúne práticas presenciais, típicas das ruas, como conversar com cabos eleitorais, participar de reuniões e carreatas, visitar comitês ou exibir adesivos, bandeiras e camisetas na roupa, no carro ou na residência. O segundo abrange atividades que não demandam sair de casa, como assistir ao Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral (HGPE) e aos debates entre os candidatos.

No momento da coleta da pesquisa, a menos de 20 dias do primeiro turno das eleições, cerca de dois em cada cinco entrevistados informaram ter participado de alguma atividade presencial. A ação mais frequente é também a que requer menos esforço: conversar com alguém que divulgava uma candidatura ou distribuía panfletos, citada por 34%. As demais aparecem bem atrás: usar ou exibir material de campanha (16%); ajudar em alguma ação (14%); ir a reunião, comício, caminhada ou carreata (13%); e visitar um comitê (11%). O engajamento parece concentrar-se, portanto, no contato que a campanha leva até o eleitor, e não em iniciativas que partem dele.

O quadro se torna ligeiramente mais participativo quando se observam as formas de acompanhamento mais discretas, que demandam menor exposição pessoal. Ao todo, 58% do eleitorado teve contato com a campanha pelo HGPE ou por algum debate. Na semana anterior à entrevista, 46% assistiram ou ouviram a um embate entre candidatos, e o mesmo percentual acompanhou o horário eleitoral.

Existem fatores capazes de atenuar ou ampliar esse engajamento na campanha eleitoral, como a idade e o nível de interesse por política. Identificou-se que os entrevistados mais jovens apresentam maior envolvimento em atividades presenciais de campanha do que os mais idosos: entre aqueles de 16 a 24 anos, 47% participam de alguma delas, contra 34% dos que têm 60 anos ou mais. Já no grupo que se diz interessado pelo tema, esse engajamento sobe para 48%, ante 34% entre os desinteressados.

Como termômetro do humor do eleitorado, a pesquisa também investigou as emoções associadas ao universo político. E o resultado é um retrato predominantemente negativo. Cerca de 60% dos entrevistados dizem se sentir "sempre" ou "frequentemente" decepcionados e 55% "sempre" ou "frequentemente" cansados. Os sentimentos positivos aparecem com menos força: 36% relatam esperança e 29%, entusiasmo.

O desconforto se estende às conversas do dia a dia. Para 44% do público ouvido, falar de política é uma experiência estressante ou frustrante. Somente 28% classificam esses diálogos como interessantes e informativos, e outros 28% preferem até evitar o assunto. O maior grupo, portanto, enxerga a conversa política como fonte de incômodo e insatisfação.

Em conjunto, os números compõem um cenário pessimista para a relação entre o eleitor e a campanha no DF, marcada por baixa adesão e pouca atenção à disputa. Vive-se, assim, um pleito de "desalento eleitoral": um momento em que interesse e participação estão longe de alcançar a maioria da população, e em que a falta de ânimo, o abatimento e a perda de esperança na política passam a definir o estado de espírito e as atitudes do eleitorado brasiliense.

 

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Por Opinião
postado em 01/10/2026 05:00
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