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Alguns destaques do Anuário da Educação Brasileira

A cultura do uso de dados em educação avançou bastante em nosso país, mas as informações precisam ser usadas na tomada de decisão na definição de políticas públicas mais robustas

. -  (crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil)
. - (crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Mozart Neves Ramos — titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira da USP de Ribeirão Preto

Seguindo as anteriores, a 13ª edição do Anuário da Educação Brasileira 2026 reúne os principais dados educacionais do país de forma clara e acessível, contribuindo assim com o monitoramento das políticas públicas e com o debate educacional qualificado. Trata-se de uma iniciativa exitosa proveniente de uma parceria entre o Todos Pela Educação (TPE), a Fundação Santillana e a Editora Moderna. O documento produzido se coloca como uma ferramenta potente para orientar o planejamento, a gestão e o debate público sobre os caminhos que o Brasil quer e precisa trilhar. Além dos dados nacionais, são fornecidos recortes estaduais, assim como uma seção especial com panoramas de cada unidade da Federação.

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Os dados do Anuário podem contribuir muito para atestar a qualidade das metas educacionais para os próximos 10 anos relativas ao novo Plano Nacional de Educação (PNE). A cultura do uso de dados em educação avançou bastante em nosso país com o advento do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), estabelecendo metas de qualidade para o país, os estados e os municípios brasileiros, juntamente com as cinco metas do Todos Pela Educação. Apesar desse avanço, muito ainda precisa ser feito, especialmente na perspectiva de usar tais informações na tomada de decisão na definição de políticas públicas mais robustas, se levarmos em conta, por exemplo, o financiamento por meio do Valor Ano Aluno Resultado (Vaar) do Fundeb e o ICMS-Educacional, que consideram como um dos eixos centrais para isso a melhoria da aprendizagem escolar e a redução das desigualdades. Em 2025, mais de mil municípios brasileiros não foram habilitados para obter recursos do Vaar por não atenderem a condicionalidade vinculada a esses dois aspectos.

Na sua 13ª edição, o Anuário traz uma luz especial para aquilo que chamamos de crise da docência no Brasil. Isso pode ser aferido na baixa atratividade pelos cursos de licenciatura. Observa-se aqui uma trajetória de queda do percentual de ingressantes nesses cursos entre aqueles com maiores notas no Enem — ou seja, aqueles que fazem parte do 5º quintil; nessa condição, em 2020, eram 22,7%, e em 2024, esse percentual cai para 14,7%.

Outro desafio evidenciado pelo Anuário foi a questão da qualidade da formação inicial dos professores. Em 2025, apenas 20,2% dos concluintes desses cursos atingiram o nível adequado no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), enquanto 42,2% ficaram abaixo do nível básico. A situação é ainda mais preocupante entre os concluintes dos cursos a distância, 53,1% ficaram abaixo do nível básico, contra 26,1% na modalidade presencial. "Os dados apresentados no Anuário mostram que o Brasil ainda não conseguiu consolidar aquilo que caracteriza os melhores sistemas educacionais no mundo: políticas docentes capazes de atrair estudantes de alto desempenho para a carreira, oferecer uma formação inicial que prepare efetivamente para o exercício da docência e garantir remuneração e carreiras capazes de desenvolver, valorizar e reter bons professores ao longo do tempo", explica Gabriel Corrêa, diretor de Políticas Públicas do Todos Pela Educação.

Outros destaques do Anuário. Em 2025, o Brasil alcançou a marca de 43,3% das crianças de 0 a 3 anos matriculadas em creches. O novo patamar representa um avanço de 12,7 pontos percentuais em relação a 2015. Por outro lado, a desigualdade entre os mais ricos e os mais pobres continua elevada. Enquanto entre os mais ricos o percentual em creche é de 54,7%, entre os mais pobres é de apenas 34,7%.

Outro aspecto tem a ver com as desigualdades étnico-raciais na trajetória dos estudantes: 81,7% dos jovens brancos e amarelos concluíram aos 19 anos o ensino médio, enquanto entre os pretos, pardos e indígenas esse percentual cai para 69,5%.

Ainda no ensino médio, apenas 8,5% dos jovens da rede pública apresentam aprendizagem adequada em matemática (muito distante da meta prevista de 50% até 2036 no PNE), enquanto em língua portuguesa esse percentual é de 35,2%. Por outro lado, 58,6% dos estudantes estavam abaixo do básico, em matemática, e 31,2% no mesmo patamar em língua portuguesa.

Outro destaque do Anuário é a evolução das matrículas da Educação Profissional e Tecnológica (EPT). No nível médio, as matrículas mais que dobraram em 10 anos — de 764 mil, em 2015, para 1,58 milhão, em 2025. Só no último ano, houve um aumento recorde de 244 mil matrículas.

A cada nova edição, o Anuário reforça seu papel de instrumento estratégico para pensar os próximos passos da educação no país. A publicação traz um panorama robusto sobre o presente e o passado, mas com os olhos voltados para o que está por vir. Uma leitura obrigatória para todos aqueles que trabalham com políticas públicas educacionais.

 


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Por Opinião
postado em 08/10/2026 05:00
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