
Enquanto nos compenetramos, por aqui, nos números das eleições do último domingo e pensamos sobre o que esperar no segundo turno, o resto do mundo analisa não apenas os resultados, mas o cenário político subjacente. Compreender os rumos políticos do Brasil é imperioso no terreno geopolítico sul-americano — e, por extensão, do conjunto da América Latina e do Caribe. Tanto mais sabendo que desalojar Lula e instalar no Planalto um Bolsonaro corresponde ao plano estratégico de Washington, sob as letras de Donald Trump e do secretário de Estado Marco Rubio.
Com o candidato que "abençoou" como o seu em vantagem para o tira-teima de 25 de outubro, a Casa Branca voa em céu de brigadeiro. Com Lula fora de jogo, o governo Trump assegura, praticamente, uma hegemonia indiscutível no tabuleiro do que chama de Hemisfério Ocidental, ou seja, as Américas. E, ainda que Lula saia do segundo turno reeleito, terá em ambas as casas do Congresso maiorias sólidas favoráveis a uma política externa afinada com a do Departamento de Estado.
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Olhando pela perspectiva das urnas de 4 de outubro, o Brasil, efetivamente, alinhou-se aos EUA. Mais do que no âmbito bilateral, o resultado das eleições do último domingo incide sobre o cenário regional e mesmo global.
Com Lula no Planalto, ainda que emparedado por um Congresso de oposição, o Brasil seguirá com um roteiro traçado para a inserção internacional alicerçada em articulações como o Brics. O foco estará, invariavelmente, em uma abordagem multilateralista da ordem mundial. Com Flávio Bolsonaro no Planalto e, possivelmente, o irmão Eduardo no Itamaraty, a bússola da política externa terá o ponteiro congelado na direção de Washington.
Do ponto de vista do entorno regional, o resultado do segundo turno no Brasil terá efeito determinante em todos os processos relacionados, de alguma maneira, à integração regional. Já nem entra em pauta a Unasul, construída nos primeiros dois mandatos de Lula e, na prática, sepultada no período de Michel Temer, seguido pelos quatro anos de Jair Bolsonaro.
Com Flávio Bolsonaro no Brasil, Javier Milei na Argentina e os contrapartes de Paraguai e Bolívia, não será o Uruguai quem manterá o projeto do Mercosul. Pode permanecer, como sigla, mas despido de qualquer parentesco com a ideia original. Na prática, cada qual se encaminhará para acordos comerciais bilaterais, com os Estados Unidos ou mesmo a China. E os países travarão, entre si, competição fratricida por investimentos e mercados. Cada um por si, e as grandes potências pelos próprios interesses.
No que diz respeito à inserção global do Brasil, a escolha de 25 de outubro é entre dois rumos antagônicos. Ou segue a opção por encontrar seu lugar em uma ordem internacional multipolar, ou será retomada a escolha pelo alinhamento no sistema dito "panamericano", herança da Segunda Guerra e da Guerra Fria, segundo o qual o Brasil "pertence" ao pedaço do mundo que uma das potências hegemônicas designa como seu "quintal".
É também sobre isso que o voto no segundo turno será decisivo. Também para quem nos observa.
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