ARTIGO

Pedir desculpas virou derrota

No último debate antes do segundo turno, Lula e Flávio Bolsonaro admitiram erro e pediram desculpas em rede nacional. Nenhum dos gestos sobreviveu ao minuto seguinte

. -  (crédito:  AFP)
. - (crédito: AFP)

Luciano Claudino — estrategista político,  autor do livro Falo, logo existo!

Na noite de sexta-feira, a dois dias da votação, um candidato à Presidência da República disse três palavras que quase não se ouvem em campanha: "Eu estava errado". Flávio Bolsonaro falava do voto que deu, como deputado estadual, contra a ampliação da licença-maternidade. Disse que hoje votaria de outro jeito. A frase durou dois segundos. A resposta de Lula veio logo depois: "Quando ele teve a chance de votar, ele não votou".

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Não foi o único recuo da noite. Flávio havia dito que o presidente "dá com uma mão e tira com os nove dedos". Lula reagiu, lembrou o dedo perdido num acidente de trabalho aos 17 anos e exigiu desculpas. Elas vieram, "de verdade", nas palavras do senador. Logo em seguida, ele quis saber se Lula também pediria desculpas aos beneficiários do Bolsa Família. Nas considerações finais, foi a vez do presidente: agradeceu a paciência do eleitor e se desculpou pelo tom da noite. Na mesma fala, chamou o adversário de miliciano mais uma vez.

Três gestos raros em duas horas: admitir um erro, pedir desculpas, pedir desculpas de novo. Na manhã seguinte, o que circulou são "nove dedos" e "miliciano". Vale perguntar por quê.

Em Falo, logo existo!, defendo que a conversa pública migrou para um formato que chamo de ringue: montado para produzir reação, com dois lados, um placar e um cronômetro. O ringue tem uma regra que ninguém escreveu, mas todos conhecem. Quem recua perde. Mudar de ideia é derrota. Pedir desculpas é admitir que se perdeu o controle, e perder o controle, no ringue, é a única derrota que conta de verdade.

Por isso o gesto nunca vem sozinho. Vem acompanhado de uma cobrança, para que ninguém o confunda com fraqueza. A desculpa recebe um "mas e você?". A confissão de erro recebe um "por que só agora?". O recuo é convertido em munição antes mesmo de terminar. Não é maldade de quem fala. É a gramática do lugar.

Repare na diferença entre os dois recuos de Flávio. O erro de anos atrás saiu limpo: "Eu estava errado". O erro de minutos antes saiu com condicional: "se eu te ofendi". A desculpa de Lula foi a única da noite dirigida a quem estava em casa, e seguiu o mesmo molde. Pediu perdão pelo tom da noite, como se a noite tivesse falado sozinha.

É mais fácil admitir o erro que já esfriou do que o que ainda está quente. O antigo não custa nada no placar. O recente custa o round. O cronômetro agrava tudo: num minuto, não há tempo para dizer "eu exagerei, não devia". Há tempo para dizer "se" e seguir para o ataque. O formato corta a explicação e preserva o slogan. Preserva também a desculpa pela metade, porque ela cabe no tempo e não cede terreno.

Depois, entra a plateia. A conversa do dia seguinte não é sobre quem explicou melhor. É sobre quem "amassou", quem se enrolou, quem levou a melhor. É vocabulário de luta, e escolher um vencedor é mais fácil do que acompanhar uma ideia. Nessa língua, três recuos não são notícia. São três rounds perdidos.

No livro, contraponho o ringue à mesa. Na mesa, pedir desculpas não é recuar. É construir. Talvez seja o gesto mais antirringue que existe, porque devolve à conversa a chance de continuar.

Hoje, o país escolhe. Amanhã, acorda com um presidente eleito e com todo o resto igual: o grupo da família, o almoço, o colega que votou diferente. É aí que a regra do ringue cobra a conta. Quem aprendeu, em duas horas de debate, que pedir desculpas é perder vai levar essa lição para a mesa de casa. Lá não existe direito de resposta. Existe o resto da vida em comum.

Dá para desaprender, e começa pequeno. Quando alguém disser "eu estava errado", deixar a frase respirar antes de perguntar por que só agora. Quando alguém pedir desculpas, não cobrar o troco na mesma frase. Desconfiar do "se" nas próprias desculpas antes de apontá-lo nas dos outros. Nada disso rende manchete. Rende outra coisa: uma segunda-feira em que a conversa continua.

Os candidatos tiveram um minuto e um placar. Nós temos a semana inteira e ninguém marcando pontos. Pedir desculpas só é derrota onde existe placar. Segunda-feira não tem placar. Tem gente.

 

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Por Opinião
postado em 25/10/2026 05:00
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