
Hoje é o primeiro dia do resto de nossas vidas. A frase poderia soar dramática se não estivéssemos no limiar, naquela linha fina que separa dois mundos: o de verdade e o de mentira. Existe um universo paralelo, fantasioso, que sequestra pessoas, sabota ideias, cria fatos, distorce narrativas, planeja maldades de forma sorrateira. E resiste uma realidade íntima, conhecida, com problemas reais e soluções que às vezes parecem distantes. Eu escolho todos os dias não me alienar e enfrentar as dores e os desafios da vida. Hoje e sempre, farei a opção pela verdade.
Como já falei aqui, esta eleição é simbólica e a mais importante desde que o Brasil se livrou da ditadura. O voto hoje é o voto pelo futuro. Não tenho dúvidas disso. Decida o seu voto buscando a verdade e entendendo a complexidade do momento em que vivemos, de ameaça à nossa democracia. Mas decida também ouvindo sua história e cavucando suas memórias.
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Lembrei-me de Elza Soares, quando ela disse que veio do "planeta fome", lugar que conheci de perto. Imagino que você também tenha suas reminiscências. Lembrei-me de José Múcio, atual ministro da Defesa, dizer na entrega do Prêmio Engenho, nesta semana, "fui fruto de uma derrota", 40 anos depois de perder para Miguel Arraes o governo de Pernambuco, nas eleições de 1986. Ele se tornou amigo do seu adversário, vitorioso aos 70 anos, porque, nas palavras de Múcio, representou o futuro e foi eleito por jovens, enquanto ele, aos 37 anos, era a imagem do passado. O debate foi essencial naquele momento para decidir a eleição — e foi, acima de tudo, respeitoso.
Uma pessoa é resultado também de ausências, de erros, de contingências. Quem passa por isso aprende a ter altivez mesmo diante dos ataques mais cruéis. Os últimos debates entre os candidatos à Presidência deixaram um sabor amargo na boca, uma sensação ruim no estômago. Confesso que ainda estou nauseada. É difícil concentrar os esforços para filtrar propostas e pensar a partir delas. Antes, esquadrinhamos os candidatos como pessoas que, no fim das contas, mostram quem são. É como o ditado: a verdade sempre aparece. Múcio respeitou Arraes. Atitude que faltou a Flávio Bolsonaro, ao debochar de Lula, usando a deficiência dele, no debate da Globo. Perdeu a lição da boa política: é possível divergir com elegância, sem apequenar-se.
É possível disfarçar, inventar, ensaiar, roteirizar uma vida de mentira. Mas a verdade sobre si mesmo escapa nos detalhes, nos gestos, na postura. Ela sai quase pelos poros. E, no fim das contas, está tudo impresso na biografia, é tudo compatível com a trajetória. É quando aparece aquele anjo sussurrando no ouvido: "Tu vens, tu vens…Eu já escuto os teus sinais". Vem o sujeito nu, se mostrando numa inteireza espetacular, a verdade pura. Para o bem e para o mal. Trajetórias à mostra, ninguém escapa das garras das próprias escolhas.
Lutar contra a verdade é uma luta inglória. Quem não a vê agora, vai ver depois. Você pode ler esse artigo antes de votar ou mesmo já sabendo o resultado das urnas. Então, essas linhas já nascem mortas? Talvez. Para mim, ajuda a escrever minha história. Mas isso importa pouco diante do que vem por aí. Hoje já temos sinais claros do nosso amanhã. A boa notícia é que o povo brasileiro provou que tem força para resistir no pior dos mundos e para celebrar no melhor.
Dedico estas palavras também aos meus dois amigos, de Pesqueira e da Ilha do Governador, que já optaram um pelo voto em branco e o outro pelo voto nulo. Assim decidiram por acharem que todos os políticos são iguais, que ninguém presta, que o escândalo do Master e mesmo quem acolheu as falcatruas de Vorcaro de braços abertos caíram na vala da normalidade.
Eu, mais uma vez, lhes digo: não são todos iguais. Existe gente decente e séria. E quem se omite compactua com o mal. Não é uma eleição qualquer, não é dia de pênalti em final de Copa: vocês não podem se esconder debaixo da mesa. Combatam o bom combate. Coragem a todos.
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