Artigo

Investir na infância é investir no desenvolvimento da sociedade

Neste segundo turno, fica a pergunta: que sociedade estamos construindo quando definimos onde e como investir na infância? Saúde, desenvolvimento e equidade não são agendas separadas

Renata Couto | Diretora-executiva do Instituto Desiderata 

O segundo turno das eleições concentra o debate em poucas candidaturas e cria uma oportunidade rara: colocar a infância no centro da discussão sobre as prioridades do país e dos estados. Mais do que propostas pontuais, o momento pede uma reflexão sobre quais escolhas de políticas públicas, a cargo de quem vai governar nos próximos quatro anos, são capazes de produzir efeitos duradouros na vida de crianças e adolescentes e no desenvolvimento de toda a sociedade. Resultados efetivos demandam vontade política, orçamento garantido, metas claras e a união de áreas como saúde, educação, assistência social, cultura e proteção de direitos. 

Investir na saúde de crianças e adolescentes não deveria ser compreendido apenas como uma obrigação estatal, mas como uma estratégia de desenvolvimento social. Garantir acesso oportuno à promoção da saúde, à prevenção, ao diagnóstico, ao tratamento e ao acompanhamento é criar condições para que cada criança desenvolva seu potencial. 

Até aqui, porém, a infância, e em especial a primeira fase, tem aparecido pouco nos programas de governo, sem a prioridade e a centralidade que merece. A pergunta que deveria orientar o debate não é apenas quanto se promete investir, mas algo mais concreto: estamos investindo o suficiente para identificar e acompanhar, no tempo oportuno, as necessidades de crianças e adolescentes? Na saúde, agir precocemente torna o investimento mais efetivo e evita que problemas se agravem. E o acesso a esse cuidado não pode ser determinado pela raça, pelo lugar de onde a criança é ou mora ou pela renda familiar. 

O câncer e a obesidade infantojuvenis tornam essa discussão concreta. Dados do Sisvan (Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional) apontam que uma em cada três crianças apresenta sobrepeso ou obesidade, condição complexa para a qual contribui o alto consumo de ultraprocessados. Por isso, as políticas de segurança alimentar, articuladas à assistência social, precisam garantir acesso real a alimentos saudáveis. Já o câncer infantojuvenil, segundo estimativa do Instituto Nacional de Câncer (Inca), terá 7.560 novos casos por ano no triênio 2026-2028. Embora represente cerca de 1% da incidência total de câncer no país, é a principal causa de morte por doença entre 1 e 19 anos, e o diagnóstico precoce é fundamental para ampliar as chances de cura. 

Mas a resposta a uma doença grave não começa no diagnóstico. Depende de uma rede capaz de acompanhar o desenvolvimento da criança, reconhecer sinais de alerta e coordenar o cuidado entre União, estados e municípios. Quando funciona, aumentam as chances de que a criança receba o cuidado adequado no tempo certo. Quando falha, o problema passa a ser o tempo perdido entre etapas. Tempo que, para uma criança em desenvolvimento, nunca é neutro e pode ser decisivo. 

As evidências científicas mostram que políticas de qualidade nos primeiros anos de vida reduzem agravos em saúde na vida adulta e também melhoram a aprendizagem, reduzem comportamentos de risco na adolescência e ampliam o acesso a melhores salários, contribuindo para a redução da pobreza. Com a queda dos nascimentos e o envelhecimento da população, investir no desenvolvimento pleno das crianças, em especial das historicamente vulnerabilizadas, é uma escolha estratégica, capaz, inclusive, de reduzir gastos sociais. Saúde e desenvolvimento infantil não deveriam ser tratados como agendas independentes, mas como dimensões de uma mesma política de garantia de direitos.

A responsabilidade não cabe só ao Estado. O artigo 227 da Constituição estabelece que assegurar os direitos de crianças e adolescentes, com absoluta prioridade, é dever da família, da sociedade e do Estado. Como diz o provérbio africano, é preciso uma aldeia inteira para cuidar de uma criança. Por isso, eleitoras e eleitores devem demandar de quem disputa a Presidência e os governos estaduais que essa prioridade seja compromisso na campanha e ação a partir da posse. 

Investir na infância exige políticas públicas integradas, orientadas por evidências e comprometidas com a redução das desigualdades desde os primeiros anos de vida. Neste segundo turno, fica a pergunta: que sociedade estamos construindo quando definimos onde e como investir na infância? Saúde, desenvolvimento e equidade não são agendas separadas. Investir na saúde de crianças e adolescentes hoje é decidir quais oportunidades queremos garantir ao país, agora e no futuro. 

 

Mais Lidas