VISÃO DO CORREIO

Violência nas eleições precisa ser coibida

A escalada ocorre justamente quando Lula e Flávio Bolsonaro iniciam o segundo turno, num ambiente de radicalização das disputas políticas, questionamentos às instituições e intensa mobilização nas redes sociais

2026 - A eleição de 2026 manteve a polarização dos últimos pleitos, mas apresentou uma novidade: Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno à frente de Lula (PT). Na votação de 4 de outubro, Flávio recebeu 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do presidente, diferença de 1,87 ponto percentual; Augusto Cury (Avante) ficou em terceiro, com 2,89%. Como nenhum dos dois primeiros alcançou a maioria absoluta, a disputa será decidida em segundo turno. Flávio e Lula voltarão às urnas em 25 de out -  (crédito: Marri Nogueira/Agência Senado )
2026 - A eleição de 2026 manteve a polarização dos últimos pleitos, mas apresentou uma novidade: Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno à frente de Lula (PT). Na votação de 4 de outubro, Flávio recebeu 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do presidente, diferença de 1,87 ponto percentual; Augusto Cury (Avante) ficou em terceiro, com 2,89%. Como nenhum dos dois primeiros alcançou a maioria absoluta, a disputa será decidida em segundo turno. Flávio e Lula voltarão às urnas em 25 de out - (crédito: Marri Nogueira/Agência Senado )

Não bastassem a desinformação e a ausência de debates relevantes, a campanha eleitoral está sendo marcada pela violência. Segundo levantamento das organizações Terra de Direitos e Justiça Global, houve 134 casos de violência política durante os 50 dias de campanha até o primeiro turno — um caso a cada nove horas. O número supera os 121 episódios registrados no mesmo período de 2022. Foram dois assassinatos e 11 atentados, além de ameaças, ofensas e agressões físicas. A violência eleitoral foi cinco vezes mais do que no período anterior à campanha.

A escalada ocorre justamente quando Lula e Flávio Bolsonaro iniciam o segundo turno, num ambiente de radicalização das disputas políticas, questionamentos às instituições e intensa mobilização nas redes sociais. O risco é que a intimidação substitua o confronto de ideias. Os números são muito preocupantes: as mulheres foram vítimas em 70 dos 134 episódios, ou 52,2% do total. Entre os ataques dirigidos a candidatos, elas também constituíram a maioria das vítimas, embora representem aproximadamente um terço das candidaturas. São Paulo registrou 16 ocorrências, Rio Grande do Norte, 13, Minas Gerais, 12, e Rio Grande do Sul, dez. A violência não distingue grandes centros urbanos e pequenas cidades.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

Três episódios ajudam a compreender a extensão do problema. Entre as autoridades, Flávio Dino revelou, na última sexta-feira, ter recebido relatório da segurança do STF com milhares de ameaças de assassinato e agressões. Advertiu que, se um magistrado passar a temer represálias pessoais por suas decisões, a própria independência do Judiciário estará comprometida. O Tribunal Superior Eleitoral acionou a Polícia Federal após identificar ataques digitais e exposição de dados de servidores, colocando funcionários e familiares sob proteção.

Entre os candidatos, o caso de Ana Elisa, de 21 anos, combina misoginia, racismo e extremismo político. Eleita deputada federal por Minas Gerais, denunciou ameaças de estupro e morte, inclusive mensagens atribuídas a um suposto integrante da organização supremacista Ku Klux Klan. Seus dados pessoais foram divulgados, e o partido contratou segurança armada. A violência procura intimidar não apenas a parlamentar, mas também mulheres negras que pretendem ocupar espaços de poder.

Entre os manifestantes, em Prata, no interior da Paraíba, simpatizantes de Lula denunciaram disparos efetuados por policiais durante uma manifestação em 12 de setembro. A Polícia Militar alega que houve resistência à abordagem e que um tiro de advertência foi necessário. A divergência exige apuração independente. O direito de manifestação deve coexistir com a atuação legal e proporcional das forças de segurança.

A radicalização nas redes sociais é alimentada pela desinformação e por discursos que deslegitimam adversários e instituições. Isso cria um ambiente favorável à intimidação. Entretanto, é indispensável distinguir crítica política legítima, mesmo contundente, de ameaças criminosas, perseguições e agressões. A liberdade de expressão não pode servir de pretexto para impedir o exercício dos direitos políticos.

O problema adquire outra dimensão no segundo turno presidencial. A mobilização de Lula e Flávio Bolsonaro nas ruas ocorrerá em meio a disputas sobre o futuro do Supremo, propostas de mudanças constitucionais e uma nova correlação de forças no Congresso. A responsabilidade das lideranças políticas aumenta na mesma proporção em que seus apoiadores se mobilizam.

A PF, os órgãos estaduais de segurança, o Ministério Público e a Justiça Eleitoral precisam atuar de maneira coordenada, com proteção às vítimas, investigação dos responsáveis e punição dos crimes comprovados

 

  • Google Discover Icon
postado em 11/10/2026 05:00
x