
Guilherme Frizzera — Doutor em relações internacionais pela UnB e coordenador do bacharelado em relações internacionais da Uninter
Em 2022, a Casa Branca levou pouco mais de meia hora para reconhecer a vitória de Lula. Quatro anos depois, o resultado já havia sido reconhecido por diversos governos antes de qualquer reconhecimento oficial de Donald Trump. O premiê canadense Mark Carney, em guerra comercial com Washington, cumprimentou o presidente reeleito, assim como Santiago Peña (Paraguai), Daniel Noboa (Equador), Keiko Fujimori (Peru) e José Antonio Kast (Chile), lideranças de diferentes orientações políticas, algumas próximas de Trump. China, Índia e União Europeia fizeram o mesmo. A novidade não está na demora norte-americana, mas no fato de que os demais não esperaram por ela.
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Seria um erro concluir que a legitimidade de uma eleição depende de felicitações estrangeiras. Os brasileiros votaram, e a Justiça Eleitoral proclamou o vencedor. As mensagens diplomáticas operam em outro plano, porque indicam quem será tratado como interlocutor nas relações entre Estados. Quando o resultado é contestado internamente, um reconhecimento amplo e rápido cria uma expectativa difícil de desfazer, e cada governo que passa a agir com base nela aumenta o custo de sustentar que a disputa continua aberta.
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Durante décadas, a posição norte-americana teve peso singular na definição do que era politicamente normal no hemisfério. Washington nunca teve autoridade sobre eleições alheias, mas seu apoio, sua hostilidade ou sua ambiguidade condicionavam a conduta de outros governos. Desta vez, a demora da potência não suspendeu a rotina diplomática, e o reconhecimento se formou por caminhos que não passam por uma única capital.
Não houve uma frente ideológica em defesa de Lula. A proximidade com Trump não levou presidentes conservadores a imitar seu silêncio, e o conflito comercial com Washington não fez do Canadá um aliado político do Planalto. A ausência de manifestação do governo argentino, liderado por Javier Milei, contrasta com a postura de outros governos conservadores. Cada governo decidiu segundo seus interesses, e é isso que dá peso à convergência. Países que divergem em quase tudo encontraram, cada um por sua conta, razões para preservar suas relações com o Brasil.
Esse comportamento expõe uma fonte de poder pouco considerada. O Brasil não é uma potência hegemônica, mas tampouco pode ser excluído das equações internacionais sem custo. Seu peso no comércio de alimentos, na transição energética, nas negociações climáticas e nos arranjos do Sul Global faz dele um parceiro que interessa a atores que competem entre si. Nesse caso, a autonomia brasileira não vem da capacidade de impor a própria vontade, mas do preço que outros pagariam para transformar uma disputa doméstica em isolamento diplomático.
A conduta dos governos estrangeiros contrasta com a tentativa de internacionalizar a contestação. Flávio Bolsonaro anunciou que buscaria anular o resultado, e Eduardo Bolsonaro pediu, em inglês, que atores estrangeiros deixassem de reconhecê-lo e pressionassem o país. Aparece aí uma contradição da política externa populista, que invoca a soberania nacional enquanto procura no exterior uma autoridade capaz de desautorizar o procedimento pelo qual essa soberania se exerce. O nacionalismo passa a depender de um veto importado.
Para funcionar, essa estratégia precisaria converter simpatias estrangeiras em dúvida internacional sobre o resultado. Quando países rivais e governos de orientações opostas reconhecem a vitória por razões próprias, fica difícil apresentar a contestação como controvérsia diplomática. A solidariedade transnacional da direita radical encontra, então, um limite menos moral do que estrutural, porque as relações entre Estados não se reorganizam segundo lealdades entre movimentos políticos.
Nada disso significa que os Estados Unidos tenham perdido capacidade de pressão, nem que felicitações protejam o Brasil de tarifas, sanções ou barganhas assimétricas. Poder material e autoridade para definir o que os outros tratam como fato político são coisas distintas. Washington pode influenciar decisões brasileiras sem conseguir, por si só, tornar provisório um resultado que outros países já incorporaram às suas relações com Brasília.
Talvez, seja assim que a mudança da ordem internacional se torna visível, antes de aparecer em tratados ou em confrontos entre potências. Ela surge quando um Estado não hegemônico, mas relevante para agendas concorrentes, deixa de depender de uma chancela central para ter sua continuidade institucional reconhecida. A vitória de Lula foi decidida nas urnas, mas as reações a ela mostraram que uma potência pode conservar o poder de punir um país sem conseguir, sozinha, definir como o resto do mundo deve tratá-lo. A palavra de Washington ainda importa, mas já não é a primeira nem a que decide.
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