Atos golpistas

Ação da PF: Lula evita comentários e pede que auxiliares não alimentem guerra

Econômico nos comentários sobre ação da PF no coração do bolsonarismo, Lula pede a auxiliares que não alimentem guerra nas redes

Em Belo Horizonte, o presidente Lula evitou comentar a operação da PF, mas vinculou a tentativa de golpe de Estado ao ex-presidente Bolsonaro     -  (crédito:  Alexandre Guzanshe/Estado de Minas)
Em Belo Horizonte, o presidente Lula evitou comentar a operação da PF, mas vinculou a tentativa de golpe de Estado ao ex-presidente Bolsonaro - (crédito: Alexandre Guzanshe/Estado de Minas)
postado em 09/02/2024 03:55

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu o tom, na manhã de ontem, que seria adotado pelo governo em relação aos comentários sobre a operação Tempus Veritatis, da Polícia Federal (PF), que mirou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL-RJ) e aliados, incluindo generais. Ele evitou comentar a ação, mas pediu rigor aos investigadores e que não haja abusos. Mesmo assim, Lula acredita na participação de Bolsonaro na tentativa de golpe de Estado e, por isso, não poupou críticas ao antecessor.

Chamou atenção também o silêncio na Esplanada dos Ministérios ao longo do dia. A orientação por uma postura discreta dos auxiliares partiu do próprio presidente Lula. Apenas o ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Paulo Pimenta, e o ministro da Defesa, José Múcio, fizeram curtas e secas declarações. A ordem foi evitar provocações que alimentem a guerra de narrativas nas redes sociais, como os comentários feitos por nomes do primeiro escalão quando, na semana passada, o filho 02 do ex-presidente — o vereador Carlos Bolsonaro — também foi alvo dos agentes federais. Declarações provocativas geraram mal-estar para o Palácio.

No Planalto, de acordo com um assessor ouvido pelo Correio, o que deve ser considerado, agora, são as palavras de Lula em Belo Horizonte. O presidente não quer comentários e piadas sobre a operação policial, dada a gravidade das acusações e do peso dos nomes envolvidos.

Agenda mineira

O presidente Lula esteve, ontem, em Belo Horizonte, quando foi perguntado sobre a operação em entrevistas que deu à imprensa. Mineiramente, evitou polemizar. "É muito difícil um presidente da República falar sobre uma ação que é feita depois de uma decisão judicial", respondeu à Rádio Itatiaia. "Espero que a PF faça a coisa do jeito mais democrático possível, e que não haja nenhum abuso. Que faça o que a Justiça determinou e, depois, apresente à sociedade o resultado do que eles encontraram", emendou.

O mandatário frisou que não cabe a ele "ficar dando palpite", e voltou a dizer que os investigados devem ter direito à presunção da inocência — um direito que, lembrou ele, lhe foi negado à época em que esteve preso. Lula vê a tentativa de golpe de Estado como "um dado concreto" e disse que resta descobrir quem financiou os atos, incluindo os acampamentos na frente de quartéis, principalmente no QG do Exército, em Brasília. O presidente disse acreditar no envolvimento de Bolsonaro com a iniciativa golpista.

"O cidadão que estava no governo não estava preparado para ganhar, não estava preparado para perder, não estava preparado para sair", pontuou. "Foi embora para os Estados Unidos, porque ele deve ter participado da construção dessa tentativa de golpe. Nós vamos esperar as investigações. Eu espero que, no tempo mais rápido possível, a gente possa ter um resultado do que realmente aconteceu no Brasil", acrescentou. O ex-presidente embarcou para Miami em 30 de dezembro de 2022, dois dias antes do fim do seu mandato, e ficou em solo americano por três meses. Questionado sobre a participação de Bolsonaro nos ataques de 8 de janeiro, Lula respondeu que "não teria acontecido sem ele".

Os demais integrantes do governo foram bem menos vocais. Paulo Pimenta foi um dos ministros que acompanharam o presidente nos compromissos na capital mineira. Ele deu entrevistas à imprensa apenas para dizer que não haveria comentários sobre a ação policial ou suas consequências. "Não vamos emitir nenhuma opinião acerca da operação", enfatizou.

José Múcio, da Defesa, também foi bastante procurado ao longo do dia por conta da presença de generais entre os alvos da PF. "Cabe às Forças Armadas apoiar a decisão da Justiça", limitou-se a declarar.

Aos auxiliares diretos, porém, José Múcio comentou que a operação Tempus Veritatis apenas está comprovando o que ele sempre defendeu: o golpismo tem que ficar circunscrito aos militares que tramaram contra a democracia, e não, às Forças Armadas como instituições de Estado. "Agora, temos nomes", disse ele em conversas privadas. O ministro não tem dúvida de que as Três Forças estão dando o apoio institucional às ações da PF e têm todo o interesse em identificar possíveis responsáveis pelo movimento que descambou para a depredação da Praça dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023.

Silêncio combinado

Nos bastidores do Planalto, a orientação para auxiliares do presidente foi a de não fazer comentários nem deboches nas redes sociais sobre a operação. O silêncio é a determinação que vale para ministros e servidores de segundo e terceiro escalões.

Lula não quer que se repita o que aconteceu na operação que atingiu Carlos Bolsonaro, há 10 dias. Não coincidentemente, uma peça publicitária do governo sobre cuidados com a dengue exibia um homem batendo à porta com a legenda "toc, toc, toc". Depois, vinha uma orientação para a população: "Quando os agentes comunitários de saúde baterem à sua porta, não tenha medo, apenas receba-os". A propaganda foi muito criticada porque deixava claro a intenção de provocar o filho 02 do ex-presidente.

 


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