Entrevista

Influência dos EUA nas eleições é possível, diz especialista

Eduardo Galvão, professor do IBMEC, destaca que sinais emitidos pela gestão de Donald Trump devem ser avaliados pelo governo brasileiro e por empresas que operam no país

Eduardo Galvão:
Eduardo Galvão: "O Brasil fica, sim, numa situação tênue" - (crédito: Bruna Gaston/CB/D.A Press)

Professor do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (IBMEC) e doutor em relações internacionais pela UnB, Eduardo Galvão não descarta a possibilidade de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tentar interferir nas eleições presidenciais deste ano no Brasil.

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"Os sinais mostram que tudo é possível. Essa hipótese precisa ser considerada, tanto pelo governo quanto pelas empresas que operam aqui", ressaltou, em entrevista às jornalistas Sibele Negromonte e Paloma Oliveto, no programa CB.Poder, parceria do Correio com a TV Brasília. Para ele, no entanto, diplomacia preventiva feita pelo Brasil "reduz a probabilidade de que haja uma intervenção maior aqui". A seguir, os principais trechos da entrevista.

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Como o senhor avalia este cenário em relação à ofensiva dos Estados Unidos na Venezuela?

Muita coisa ainda está sendo construída, e a gente está, de fato, no meio de uma crise, no olho do furacão, como se fala. Muitos sinais a gente ainda está lendo para poder construir esses cenários que podem acontecer. Essa ação não foi uma surpresa, isso já tinha sido anunciado. A grande dúvida que se tinha era se os navios na costa venezuelana seriam utilizados, não só como métodos de coerção, mas como métodos violentos de invasão. O governo americano tem usado o termo "captura" para dar um ar policialesco, mas o que houve ali foi a retirada de um chefe de Estado com a justificativa do petróleo. Trump foi muito claro nisso, de que o interesse era o petróleo, embora ele tivesse começado a construir uma narrativa de combate ao narcotráfico, acusando Maduro de ser líder de um cartel e que essa produção de drogas na Venezuela prejudicaria tanto o cidadão americano quanto a saúde pública dos Estados Unidos. Então, ele veio construindo essa narrativa, até para trazer uma legitimidade para a sua ação, tanto para o ambiente interno, doméstico, dos Estados Unidos, quanto para o cenário internacional. Mas depois ele declarou que não, que o interesse é petróleo.

A narrativa sobre narcotráfico pode ser usada para países como Colômbia, México e até Brasil. Trump pode usar essa retórica para tentar alguma coisa contra outros países da América Latina?

Sim. A gente precisa ler tanto as retóricas, as narrativas, quanto também os sinais que são emitidos. E, aí, sobre os próximos passos. Isso acende um alerta muito importante, não só para o Brasil, mas para outros países da América Latina. Por quê? Nós temos petróleo também no nosso território. A Guiana tem uma área de Essequibo. Maduro, há pouco tempo, queria invadir lá; talvez, passando pelo Brasil para poder ir atrás desse petróleo. Será que os Estados Unidos também vão ter interesse? Qual é o impacto disso aí para a gente? Vamos ler de uma forma um pouco mais ampla: Trump declarou que está em busca de petróleo, mas os Estados Unidos também têm interesse em outros recursos naturais. Vamos falar dos minerais, de terras raras. A gente tem reservas aqui no Brasil, mas outros países, como Peru e Chile, também têm esse tipo de reservas que interessam muito aos Estados Unidos. Porque isso alimenta a indústria computacional, a indústria automobilística, que, para eles, é muito forte por causa dos semicondutores, dos chips. Só duas nações têm a capacidade para desenvolver os chips a partir dos minerais de terras raras, que são Estados Unidos e China. Então, existe, sim, um interesse por esses metais. E a América Latina tem as grandes reservas. Aí, de novo, um alerta: será que o interesse por esses metais pode desencadear, pode escalar para uma uma disputa contra os países da América Latina? Isso é um alerta que acende: quais podem ser os próximos passos e como o Brasil precisa trabalhar, preventivamente, na sua diplomacia para evitar esse tipo de conflito.

Como é feito esse trabalho?

A diplomacia do Brasil é uma das mais respeitadas no mundo, e as posições que o Brasil tomou oficialmente são condizentes com a tradição diplomática brasileira de respeito à soberania, à autodeterminação dos povos. Então, foi muito em linha com o que já é a cultura do Brasil. Acontece que Trump reinaugura uma forma de fazer política externa, que é o uso da força em países vizinhos. Isso, há mais de 30 anos, não se via na América Latina. Agora, a gente vê uma nova forma de política externa, conjugando tanto ações de negociação, ações diplomáticas quanto ações de coerção e intimidação. O que os países devem adotar agora? A primeira coisa é entender que as ferramentas estão mudando; inclusive, isso abre um precedente tanto para uso pelos Estados Unidos em outros países quanto para uso por outros países em seus territórios vizinhos. Então, o que se chama de diplomacia preventiva passa a ser muito mais relevante agora para que o país possa estreitar laços, negociar, fazer concessões para evitar que uma escalada militar — que os eventos estão mostrando que é plenamente possível — aconteça. E, aí, nesse ponto, a aproximação que o presidente do Brasil teve com o presidente americano Trump, há pouco tempo, por conta das tarifas, foi um outro assunto, foi uma outra pauta. Mas isso serve como uma diplomacia preventiva para que o país possa estreitar laços e evitar que esse tipo de risco político venha também afetar, eventualmente, o Brasil nos próximos anos.

Os EUA são o nosso segundo maior parceiro comercial. É difícil exigir do Brasil uma postura mais firme, mas o país está sendo cobrado. Faz sentido isso?

É uma situação bastante complicada, porque o Brasil tem o seu posicionamento de respeito aos povos, à soberania, mas, por outro lado, também nas relações internacionais existe um pragmatismo muito grande pelos países. E os Estados Unidos são o nosso segundo parceiro comercial. Qual é o primeiro? É a China. Se a gente for dividir o mundo em lados, ela estaria do lado da ditadura da Venezuela, do Nicolás Maduro. Veja que o Brasil tem uma situação bastante delicada nesse cenário, porque tem a posição ideológica em relação à democracia, em respeito ao direito internacional, mas, por outro lado, existe um pragmatismo muito grande, que é seguido, também, pelas grandes potências, por China, por Estados Unidos. Porque esse tipo de ação pelos Estados Unidos não é por posição diplomática, é por uma posição econômica, interesse econômico por recursos naturais. Então, o Brasil fica, sim, numa situação tênue. Tem seus princípios, mas não quer tomar uma atitude que possa prejudicar a nossa política interna, a nossa economia, a vida das pessoas, que, no final das contas, é o que acaba acontecendo.

Mas o senhor avalia que a posição adotada pelo Brasil é correta?

Existe a posição que é declarada, que vai para os pronunciamentos oficiais. Existem as posições dos chefes de Estado que circulam nas redes sociais e vão para o eleitorado deles. E existem as posições e as negociações que acontecem nos bastidores da chancela. E, apesar de que a maior parte dos países da América Latina ter se posicionado nesse mesmo sentido, rechaçando a invasão, o desrespeito à soberania, o desrespeito à autodeterminação do povo venezuelano, outros países, como foi o caso da Argentina, do Equador, celebraram a queda de um regime ditatorial, que já vinha de muitos anos nos bastidores da chancelaria. Quero dizer: há a que é publicada, mas também aquela que fica nos bastidores das negociações internacionais. E, em ambos os caminhos, o Brasil está seguindo o que já é a tradição diplomática de consenso.

A gente está voltando um pouco para uma guerra fria?

Na verdade, a gente já vive uma segunda Guerra Fria há bastante tempo. Parte da doutrina internacionalista diz que é uma outra Guerra Fria, mas existe uma outra parte que olha como uma continuidade da primeira, em que você muda atores. Não é mais com a Rússia, agora é com China. E existe uma diferença de roupagem: não é mais só sobre ações militares e territórios, mas uma disputa por centralidades de redes de produção, redes econômicas, financeiras, de informática, de tecnologia de inteligência artificial. Quando a gente olha o mapa da América Latina, há uns 20 anos, e percebe que o principal parceiro dos países na região eram os Estados Unidos, a Europa, quando a gente olha esse mesmo mapa hoje, tudo está dominado pela China. É o principal país e o principal parceiro comercial de todos os países da América Latina. Os Estados Unidos foram perdendo a sua hegemonia na região, não só em termos comerciais e econômicos, mas também pela influência e centralidade dessas redes. Sim, de fato, é uma nova guerra fria, é uma outra roupagem com outros interesses e uma nova dinâmica.

Como o senhor projeta o futuro político da Venezuela?

A gente precisa estar sempre lendo os sinais. Trump já tinha falado que ele quer fazer a transição, quer ser o incumbente temporário e, depois, fazer uma transição, porém o que a gente está vendo agora é que a Delcy Rodríguez está como interina. Então, parece-me que assim, a liderança política não está alinhada aos Estados Unidos, está alinhada ainda pelo movimento chavista. A grande verdade é que, para os Estados Unidos, o interesse é o petróleo. Se Trump puder fazer isso com os menores custos possíveis, melhor. Não só custo econômico, mas também custo político. Se ele tiver um ambiente social em que não haja manifestações, não haja baderna, violência civil etc., para ele é muito melhor. Isso pode acontecer de que formas? Como pode ser essa nova gestão dos Estados Unidos sobre a Venezuela? Pode ser uma gestão direta durante muito tempo. Não temos prazo ainda para isso, para que essa transição aconteça. Isso é bom para os Estados Unidos, pelo fato de quererem petróleo, porque estão no controle da máquina. Porém, pelo lado da percepção da legitimidade do governo e da aceitação da opinião pública, não. A gente pode pensar num outro cenário muito oposto a esse, que é de eleições livres e democráticas num período relativamente curto, mas abre um flanco muito grande. É um risco para os interesses dos Estados Unidos, porque pode vir um novo seguidor ou seguidora do chavismo e, aí, atrapalha os planos de Trump. E um cenário em que os Estados Unidos indicam alguém e colocam essa pessoa no poder para administrar a Venezuela, de acordo com interesses dos EUA. Também podem ocorrer eleições com ares democráticos, mas que vão eleger alguma pessoa necessariamente alinhada aos interesses dos Estados Unidos.

Promovem-se eleições democráticas, coloca-se alguém ali, alinhado aos Estados Unidos, e todo mundo fica, talvez, feliz?

São esses três atores, cada um com seus interesses. Os Estados Unidos, com interesse econômico no petróleo; a comunidade internacional, com interesse na manutenção do comércio, na estabilidade, na ordem internacional; e a população da Venezuela, que precisa ser considerada. Uma solução diplomática que atenda a esses três interesses tende a trazer menos estresse, tanto para o ambiente internacional quanto para o ambiente interno.

Estamos em ano de eleições gerais no Brasil. De que forma essa crise na Venezuela pode afetá-las?

Certamente vai afetar, principalmente na questão da retórica, da narrativa, porque tanto os setores à esquerda quanto os setores à direita tendem a se apropriar dessa narrativa e fazer o seu enquadramento. Vai ser explorada politicamente aqui, seja para criticar a presidência do Lula, seja para apoiar, mas também em relação a outros líderes de direita, de centro direita, de extrema-direita, apropriando-se desse recurso e usando como uma ferramenta de comunicação política para as eleições.

Corremos os risco de os Estados Unidos tentarem influenciar, de forma contundente, as eleições?

Os sinais mostram que tudo é possível. A gente estava imaginando que os navios na costa da Venezuela tinham probabilidade alta de serem apenas um tiro para o alto, apenas um aviso, mas Trump está demonstrando que ele pode fazer qualquer coisa, e ele quer fazer muita coisa. Então, sim, essa hipótese precisa ser considerada, tanto pelo governo quanto pelas empresas que operam aqui. Mas o Brasil já tem dialogado internacionalmente e feito essa diplomacia preventiva. Esse fato reduz a probabilidade de que haja uma intervenção maior aqui. Porém, de novo: a gente está trabalhando com hipóteses e probabilidades. Existe sempre a possibilidade de essa interferência acontecer em maior ou em menor grau.

O que o senhor prevê para o nosso continente dentro desse contexto dos riscos políticos? É, até, o título do seu livro, prestes a lançar, sobre a América Latina.

Sim. Chama Riscos Políticos na América Latina e está para ser lançado pela editora Diálogos. Isso deve acontecer até o fim do mês. Estamos antecipando essa editoração porque passei os últimos dois anos escrevendo o livro sobre esse tema, porém os fatos estão atropelando a gente e está cada vez mais urgente a gente tratar desse assunto. Por isso, estamos acelerando um pouco essa publicação. Ali, a gente faz um apanhado histórico de contexto da América Latina e traz ferramentas sobre como governos e empresas podem lidar no gerenciamento do risco político. Isso que aconteceu agora com a Venezuela muda todo o cenário, porque está havendo uma virada de chave na forma de fazer a política externa. Os interesses sobre os recursos naturais estão alcançando um outro patamar. Isso acaba trazendo um efeito para governos; para empresas aqui de preço do seguro; preço do seguro marítimo; as oscilações das ações a médio, curto e longo prazo; também a percepção de risco sobre a região, não só Brasil, mas todos os países da região. O investidor, quando olha a região e vai ampliar as operações no Brasil, ele vai levar em conta esse cálculo de risco. Qual a chance de uma outra nação invadir aqui, tomar conta das empresas que operam no Brasil? Isso tudo muda o cálculo de risco. Já mudou a forma como as empresas, os investidores vão olhar o país e o mercado aqui, mas muita coisa ainda está para presenciar.

Não somos parceiros comerciais significativos da Venezuela, mas esse pode ser um impacto importante a longo prazo em relação ao investimento no Brasil?

Sim, porque o que poderia acontecer com o petróleo é que hoje a gente tem mais oferta do que demanda, não teve oscilações significativas. Estamos no curto prazo, não tem um efeito relevantr, mas a médio e longo, a gente pode perceber, sim. Menos de perda do que já se tem e mais uma perda das possibilidades, um custo de oportunidade. As empresas que pensam em ampliar o investimento no Brasil vão olhar de uma segunda forma agora. Será que vale a pena? Qual o tipo de risco a que eu estou expondo o negócio? Vejo a América Latina como um todo. É um risco de médio a longo prazo, que pode inibir investimentos aqui na região.

 

*Estagiária sob a supervisão de Cida Barbosa

 

 

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LC
postado em 07/01/2026 03:55
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