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Bolsonaristas veem possibilidade de interferência de Trump nas eleições

Ofensiva dos Estados Unidos sobre a Venezuela animam parlamentares aliados ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Líder do PT quer investigação da PF sobre congressistas por supostamente incentivarem intervenção americana no Brasil

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Lindbergh Farias: "Nossa democracia não é negociável" - (crédito: Marina Ramos/Câmara dos Deputados)

A captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e de sua esposa, Cilia Flores, após intervenção militar realizada pelos Estados Unidos na Venezuela, no último sábado (3/1), repercutiu na política brasileira. Após autoridades americanas sugerirem uma possível interferência de Maduro nas últimas eleições venezuelanas, que o consagraram chefe de Estado do país vizinho, políticos da ala bolsonaristas passaram a ver possibilidade de interferência política no Brasil.

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Em entrevista para o jornalista Luís Ernesto Lacombe, o deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) chegou afirmar que uma interferência americana nas eleições do Brasil já é praticamente uma realidade com a prisão de Nicolás Maduro.

“Com certeza, o Trump vai se aprofundar nessa pauta eleitoral, porque a Venezuela tem tudo a ver com isso, seja através de Smartmatic (empresa que forneceu urnas eletrônicas para as eleições venezuelanas), seja através de dinheiro de tráfico de drogas, caixa 2 para as eleições dos companheiros do Foro de São Paulo. Vai vir muita coisa à tona. Lula agora está na mão do Trump. [...] A integridade eleitoral terá reflexos no Brasil, se Deus quiser”, disse na entrevista.

Lideranças bolsonaristas na Câmara dos Deputados também repercutiram o tema. Ao Correio, o líder do PL na Casa, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), por exemplo, não afirmou nem negou a possibilidade de interferência americana no processo eleitoral, mas disse que a imprensa americana já repercute que o ex-presidente dos EUA Joe Biden interferiu no pleito de 2022 que elegeu Lula como presidente. Em poucas palavras, após citar o episódio, ele disse que “tudo é possível”.

Já para o novo líder da oposição, deputado Cabo Gilberto Silva (PL-PB), ainda não existe nada de concreto e que, por isso, ele define o assunto como uma “fake news”. “Eu não vi nada de concreto com relação a isso e até as eleições teremos muitas fake news”, pontuou, ao Correio.

Para rebater, o líder do PT, Lindbergh Farias (RJ), afirmou que dará entrada em uma representação na Polícia Federal solicitando uma investigação contra parlamentares bolsonaristas por traição e atentado à soberania nacional. O pedido incluirá os nomes de Eduardo Bolsonaro e do irmão Flávio Bolsonaro (PL-RJ), juntamente com o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG).

Ele também disse que não se trata de opinião política quando falas, ameaças e peças de propaganda tentam normalizar a ideia de intervenção militar estrangeira no Brasil, questionar eleições, incitar guerra e depor um governo legitimamente eleito.

“Isso pode configurar crimes gravíssimos: atentado à soberania, tentativa de golpe e associação criminosa. O Brasil não é colônia. Nossa democracia não é negociável. Defender a Constituição é dever. Golpismo não passará”, citou o líder petista.

Na visão do especialista em marketing político e eleitoral Marcelo Vitorino, é importante separar dois conceitos que estão sendo misturados no debate: intervenção militar e interferência política. Ele afirma que não vê a possibilidade de uma intervenção militar no Brasil nos moldes da Venezuela, por uma questão de estratégia norte-americana.

Agora, tratando-se de interferência política, a história muda. “Aí, sim, existe espaço para preocupação. Não como teoria conspiratória, mas como padrão histórico. Os Estados Unidos sempre tiveram preferências eleitorais na América Latina e sempre encontraram formas de manifestá-las. Isso pode acontecer de várias maneiras: declarações públicas de apoio ou crítica, pressão econômica seletiva, liberação ou retenção de acordos comerciais em momentos estratégicos, uso de narrativas via imprensa alinhada, ou movimentos mais sutis nos bastidores diplomáticos”, disse Vitorino

Ele pontuou que, com Maduro preso e Trump declarando que “a América Latina nunca mais vai questionar o domínio americano”, o recado para a região ficou mais que explícito.

Essa interferência política foi destacada também pelo especialista em relações internacionais João Vitor Cândido, que ainda destacou que tal tipo de influência não acontece com tanques ou decretos, mas com narrativas, diplomacia e poder simbólico. “Ainda assim, qualquer linha que ultrapasse a cooperação institucional e avance para ingerência direta tende a provocar reação imediata do Estado brasileiro, porque contraria princípios constitucionais básicos e o próprio equilíbrio democrático”, disse.

Governo descarta interferência

Apesar dos questionamentos, o governo Lula descarta a ideia de que a ofensiva dos Estados Unidos na Venezuela abrirá brecha para uma interferência norte-americana nas eleições deste ano. Essa possibilidade, discutida por especialistas e políticos, é defendida por Eduardo Bolsonaro.

Embora o posicionamento do governo seja seguro ante a interferência norte-americana nas eleições, o presidente Lula e seus ministros farão alusões à ideia de soberania latino-americana, no evento alusivo aos atos golpistas do 8 de Janeiro de 2023, programado para esta quinta-feira, no Palácio do Planalto.

Segundo interlocutores palacianos, a ideia é mostrar que os mesmos políticos que endossaram anistia a condenados pelos atos de vandalismo também apoiaram pautas como o tarifaço de 50% dos EUA às exportações brasileiras e a intervenção norte-americana na Venezuela, no último final de semana.

O apoio à ação norte-americana contra o país sul-americano foi corroborado por nomes como os presidenciáveis Flávio Bolsonaro (PL-RJ); Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo; Ronaldo Caiado (União-GO), governador de Goiás; e Ratinho Jr. (PSD), governador do Paraná.

O recado de relacionar o ato em alusão ao 8 de Janeiro com ideias de defesa da soberania continental e críticas a políticos da oposição foi endossado pela ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann.

"É muito importante ressaltar estes fatos neste momento em que a soberania em nosso continente volta a ser ameaçada, como não se via desde os tempos da Guerra Fria", disse Gleisi, em vídeo publicado nesta terça-feira, em seu perfil no Instagram.

Na publicação, a ministra também relaciona políticos que defendem a interferência dos EUA na Venezuela com as bandeiras em prol da anistia a condenados por participação no 8 de janeiro.

"Nós sabemos muito bem quem defendeu e segue defendendo, sinceramente, a democracia junto com o povo brasileiro. Não são aqueles que conspiraram contra o julgamento dos golpistas. Comemoraram o tarifaço e as sanções. Defenderam a anistia aos condenados. Os que se dizem contra as ditaduras em outros países, mas tentam implantar uma ditadura aqui mesmo contra o Brasil, e já mostraram que são capazes de entregar a soberania nacional para alcançar seus objetivos", comentou.

Embora Gleisi Hoffmann tenha citado a ideia de soberania sul-americana, o ministro Guilherme Boulos, da Secretaria-Geral da Presidência da República, destacou pautas como a “defesa da democracia e a condenação do golpismo” como pontos centrais do ato sobre o 8 de Janeiro.

“Agora, é evidente que os temas da soberania e defesa da paz ganharam força após os ataques dos EUA e serão complementares no ato”, ponderou o ministro, que, assim como Gleisi Hoffmann, publicou um vídeo em suas redes sociais em convite ao ato.

Já o vice-presidente Geraldo Alckmin classificou como “bom” o relacionamento entre Lula e Donald Trump. Durante a apresentação da Balança Comercial de 2025, ele afirmou que Brasil e Estados Unidos têm de avançar na relação bilateral.

“(Lula e Trump), tiveram vários encontros, as conversas avançaram, e a nossa tarefa é avançar ainda mais. Acho que a gente pode ter um ganha-ganha, não só do ponto de vista tarifário, mas também não tarifário”, comentou Alckmin.


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postado em 07/01/2026 03:55
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