
O ato convocado pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) no Eixo Monumental foi um evento do bolsonarismo "raiz". Mobilizados pelas redes socais, muitos manifestantes chegaram cedo à Praça do Cruzeiro, ponto mais alto da capital federal, mas encontraram uma estrutura despreparada para receber tanta gente. O carro de som, por exemplo, era uma acanhada caminhonete, equipada com caixas de som de pouca potência para serem usadas em um descampado como o gramado central do Eixo Monumental.
O roteiro estava pronto. A passeata foi reiniciada, no domingo (25/1), às 8h30, na altura do Park Way, para ser finalizada na Praça do Cruzeiro, por volta das 14h. Até lá, lideranças políticas de direita se revezariam ao microfone para aquecer uma multidão vestida de verde e amarelo. O ato final seria um apoteótico discurso do organizador do protesto. Mas, no meio do caminho, veio a chuva. E não foi uma chuva qualquer. Foi um temporal intenso, com relâmpagos, trovões e vento forte, que acabou dividindo o ato em dois momentos: antes e depois do aguaceiro.
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Para os bolsonaristas, todos os caminhos levavam ao Eixo Monumental. Teve gente que foi a pé, de bicicleta, patins e até a cavalo. Grupos de motociclistas ligados ao bolsonarismo também se fizeram presentes. Com muitas vias bloqueadas pela Polícia Militar, o trânsito no Plano Piloto deu nó. Carros e ônibus de turismo que trouxeram manifestantes de outros estados usaram as ruas e avenidas do Sudoeste, do Cruzeiro e do Setor Militar Urbano como estacionamento, já que o acesso à área do evento estava totalmente fechado para o tráfego de veículos.
Entre a quadra 500 e o Setor de Oficinas do bairro do Sudoeste, a reportagem do Correio contou seis ônibus estacionados, vindos de Caldas Novas (GO), Uberaba (MG) e Ribeirão Preto (SP). Os motoristas não informaram quem fretou os ônibus, que viajaram lotados. Um deles, que pediu para não ser identificado, disse que não houve cobrança de passagem, mas não soube informar quem contratou o serviço.
No auge da tempestade, vários passageiros retornaram aos ônibus em busca de abrigo por causa dos relâmpagos, que assustaram muita gente. A maioria nem ficou sabendo, na hora, da descarga elétrica que atingiu a praça e feriu mais de 30 pessoas que acompanhavam a manifestação. Muito material levado pelos vendedores ambulantes estragou, como camisetas e bandeiras do Brasil, que tiveram de ser retiradas às pressas dos varais em que eram expostas. Uma vendedora de cachorro-quente perdeu todo o estoque de pães que havia levado.
Congestionamento na terra, congestionamento também no ar. Pelo menos 12 drones sobrevoaram o carro de som na hora do discurso de Nikolas. Acima deles, três helicópteros das corporações policiais acompanharam a manifestação do alto. Completando o cenário, uma pipa carregava uma faixa pedindo "Anistia já" para os condenados pelo 8 de Janeiro.
"Bolsonarismo raiz"
Um detalhe chamou a atenção da equipe do Correio: não havia nenhum cartaz ou faixa pedindo intervenção militar no governo, como costumava aparecer em atos bolsonaristas pelo país. A maioria dos slogans estampados em faixas e camisas ostentava palavras de ordem como "Acorda Brasil" ou "O gigante acordou". O vereador carioca Carlos Bolsonaro (PL) — o único representante da família do ex-presidente no evento — estava vestido com uma camiseta branca com a frase "Bolsonaro free" (livre, em inglês). A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, uma das atrações mais esperadas, não apareceu.
A ala mais radical do bolsonarismo estava lá, tirando selfies, gravando vídeos e cumprimentando apoiadores. Políticos como a deputada federal Bia Kicis (PL-DF) e seus colegas de bancada Delegado Caveira (PL-PA), Hélio Lopes (PL-RJ), Carlos Jordy (PL-RJ) e Zé Trovão (PL-SC), além do senador capixaba Magno Malta (PL) — que se recupera de uma cirurgia e percorreu alguns trechos da caminhada de Nikolas em cadeira de rodas.
No carro de som, Nikolas defendeu as comissões parlamentares de inquérito (CPIs) para apurar fraudes no Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) e nas operações do Banco Master. E cobrou o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União), sobre a investigação das fraudes da instituição de Daniel Vorcaro.
"Estamos aqui para pressionar uma pessoa que tem sido omissa neste país. Chama-se Alcolumbre. Queremos a instalação da CPMI do Banco Master. Vou incomodar o senhor", provocou o deputado, antes de convocar um coro contra o presidente do Congresso.
Nikolas também falou da necessidade de a direita olhar para o Nordeste, região que ainda é reduto eleitoral petista. "E aqui eu sei que chega na eleição, tem muita gente que guarda um sentimento, né, contra o Norte, contra o Nordeste. Mas posso falar algo para vocês, se o PT chegou lá e manipulou essas pessoas, é porque nós não conseguimos chegar perto delas para poder levar a verdade. O Nordeste vai ser livre", pregou.
Nenhum político, além de Nikolas, discursou. Não havia, sequer, espaço para eles em cima do carro de som. Ficaram todos no asfalto molhado, em clima de confraternização com os eleitores. E só depois do ato terminado é que foram informados por assessores sobre o acidente provocado por uma descarga elétrica.

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