
A filiação do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, ao PSD, mexeu com o tabuleiro da corrida presidencial. Apesar de o partido não ter decidido quem lançará como candidato para concorrer contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), os dois nomes colocados até agora, a ideia é percorrer a trilha que Tarcísio de Freitas (Republicanos) deixou aberta. Isso porque, o governador paulista — que agora tentará a reeleição — tinha tudo para aglutinar os votos da direita não bolsonarista e de parte do centro que rejeita o PT por conta do perfil de moderação. É esse espaço que o representante do PSD pretende ocupar, sendo Caiado ou os governadores Ratinho Jr. (PR) e Eduardo Leite (RS), ambos pré-candidatos ao Palácio do Planalto.
Para Murilo Medeiros, cientista político pela Universidade de Brasília (UnB) e assessor legislativo no Senado, a filiação de Caiado ao PSD simboliza mais do que o abandono da federação União Progressista (composta pelo PP e pelo União Brasil). Ele considera que é parte de um movimento engenhoso de reorganização da centro-direita.
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"O PSD passa a disputar diretamente o eleitor conservador moderado: com estrutura partidária, palanques estaduais e lideranças executivas em evidência. É uma engenharia política que busca furar a bolha da dicotomia lulismo-bolsonarismo. É um reposicionamento que impõe pressão a Flávio Bolsonaro na disputa pelo eleitor de direita e, também, faz um contraponto ao governo Lula. Com Caiado, o PSD reforça seu discurso de segurança pública e se aproxima ainda mais do eleitorado que vê o atual governo com desconfiança", analisa.
Peso político
Ao anunciar a filiação de Caiado, o presidente do PSD, Gilberto Kassab, destacou o peso político do governador goiano e sinalizou que o partido trabalha com um projeto coletivo. "Fomos deputados federais juntos e sua presença no PSD, hoje, fortalece nosso partido. Mais importante, a sua disposição em ser candidato a presidente da República, ao lado do Eduardo Leite e do Ratinho Jr., fortalece nossa democracia", afirmou.
Kassab, aliás, é secretário de Governo e Relações Institucionais de Tarcísio e seu PSD tem três ministros no governo Lula: Carlos Fávaro (Agricultura e Pecuária), Alexandre Silveira (Minas e Energia) e André de Paula (Pesca).
A estratégia do PSD vinha se desenhando nos últimos dias. Na segunda-feira, Kassab deixou clara a impossibilidade de uma aliança com Flávio Bolsonaro. Afirmou que a legenda pretendia lançar candidatura com a saída de Tarcísio da disputa ao Planalto.
"Desejo boa sorte ao Flávio Bolsonaro. Que ele faça uma boa campanha, que ele possa levar suas ideias e seus projetos para o país. O PSD tem uma posição muito clara. Se Tarcísio for candidato, o PSD irá apoiá-lo. Caso não seja, temos dois pré-candidatos no partido, dois excelentes governadores", disse Kassab, dias antes da filiação de Caiado e da desistência do governador paulista.
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Em conversa com um parlamentar próximo a Caiado, que falou ao Correio sob a condição de anonimato, ele afirmou que o PSD tem por objetivo "aglutinar os votos da direita não bolsonarista". Esse cenário, porém, é desfavorável a Caiado: isso porque ele esteve presente a todas as manifestações da extrema-direita na Avenida Paulista, ao lado de aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ratinho Jr. compareceu somente à de 6 de abril de 2025, enquanto Eduardo Leite jamais participou.
Na coletiva de imprensa que reuniu os três governadores do PSD, mais o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), ontem, em São Paulo, Caiado fez questão de reforçar que não há ruptura entre os campos da centro-direita e da direita bolsonarista. E insistiu na multiplicidade de candidaturas no primeiro turno, algo que há tempos defende.
"Uma candidatura única no primeiro turno é o que Lula quer. Não estamos fazendo o gosto do Lula, estamos querendo ganhar a eleição. No segundo turno, todos estaremos com aquele que enfrentar o PT. Isso é o óbvio", afirmou. O governador de Goiás esteve com Flávio Bolsonaro antes de o senador viajar para Israel para traçarem o panorama eleitoral.
Fumaça branca
Caiado também destacou que a decisão sobre a candidatura caberá ao comando do partido. "O PSD vai tomar uma decisão interna, ouvindo quem o presidente Kassab acha que deve ouvir naquele momento, e vai indicar quem de nós deverá ser o candidato", afirmou, brincando que agora resta "esperar a fumacinha branca" — tal como na escolha dos papas — para saber quem será o escolhido.
Ao justificar a saída do União Brasil e a escolha pelo PSD, Caiado afirmou que optou por um partido que não trabalha com candidaturas individuais e que oferece liberdade política nos estados. "Aquele que for indicado terá o apoio dos demais. O problema não é só ganhar a eleição. É saber como governar o país diante desse colapso de governabilidade instalado pelo Lula", criticou.
Nos bastidores, a expectativa é de que Ratinho Jr. e Eduardo Leite tentem candidaturas ao Senado, respectivamente, pelo Paraná e pelo Rio Grande do Sul, ampliando a bancada do PSD no Congresso.
A decisão sobre quem o PSD lançará à Presidência da República será tomada por um "grupo de notáveis" dentro do PSD. Chefiado por Kassab, reúne personagens políticos de peso, como Jorge Borhausen (ex-senador e ex-ministro da Educação no governo de Fernando Collor); a diretora-presidente da Comunitas, Regina Esteves; Andrea Matarazzo (ex-ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República no segundo governo de Fernando Henrique Cardoso); e o ex-deputado federal Guilherme Afif Domingos.
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