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Saia justa sobre a paz em Gaza: Lula analisa convite de Trump para conselho

Lula fará consultas antes de decidir se integra o "conselho de paz" de Trump, que se propõe a ajudar a administrar uma região devastada

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não vai responder, de imediato, ao convite feito pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para integrar o "conselho de paz" da reconstrução da Faixa de Gaza. O convite foi recebido pela Embaixada do Brasil em Washington e chegou ao Palácio do Planalto na última sexta-feira. Ontem, Lula reuniu-se com o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, para discutir o assunto. Como o convite trata de um tema geopoliticamente complexo, que demanda avaliação mais aprofundada e decisões coordenadas, o Correio apurou que o governo brasileiro vai conversar com "países parceiros" antes de definir sua posição.

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As consultas começam a ser feitas ainda nesta semana, pelo Itamaraty, em diálogos com outros países que receberam convite semelhante — como Paraguai, Canadá, Turquia e Egito. Também deve levar o tema para avaliação dos parceiros mais próximos do Brasil, como os sócios do Brics e do Mercosul, e os representantes da União Europeia.

O presidente da Argentina, Javier Milei — um declarado aliado do presidente dos Estados Unidos —, informou, no fim de semana, que ficou "honrado" com o convite e que participará do colegiado proposto por Trump. O presidente da França, Emmanuel Macron, por sua vez, deu indicações de que não integrará o grupo, segundo apuração de agências europeias com fontes no Palácio do Eliseu (sede do governo francês).

Os termos do convite feito a Lula estão sendo avaliados pela diplomacia brasileira à luz dos tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário. Segundo fontes do Itamaraty ouvidas pelo Correio, o convite de Trump é pouco preciso, escanteia organismos multilaterais do processo de pacificação de Gaza — principalmente a Organização das Nações Unidas (ONU) e seu Conselho de Segurança — e abre brechas para que o novo colegiado intervenha em outros conflitos pelo mundo.

Um trecho do documento da Casa Branca vazado pela imprensa dos Estados Unidos diz que é "preciso ter coragem para abandonar abordagens e instituições que falharam com muita frequência", ao justificar a criação do grupo. Para observadores, uma crítica velada à ONU e um sinal de que os EUA vão tentar manter núcleos de poder internacional fora da alçada dos organismos multilaterais tradicionais. Na semana passada, ao elencar as prioridades das Nações Unidas para 2026, o secretário-geral António Guterrez disse que "a erosão do direito internacional não está acontecendo nas sombras, está se desenrolando diante dos olhos do mundo, em nossas telas, ao vivo em 4K".

"Pessoas em todos os lugares estão testemunhando, em tempo real, as consequências da impunidade — o uso ilegal e a ameaça da força; ataques a civis, trabalhadores humanitários e funcionários da ONU; mudanças inconstitucionais de governo; o atropelo dos direitos humanos; o silenciamento da oposição; a pilhagem de recursos", criticou Guterrez.

A falta de representantes palestinos no conselho proposto pelo presidente do EUA também é motivo de preocupação do Palácio do Planalto. Historicamente, o Brasil apoia a criação do Estado da Palestina e mantém posição crítica à política belicista de Israel na região. A participação de Lula no grupo proposto por Trump poderia ser interpretada como uma flexibilização dessa posição histórica brasileira.

Outro aspecto da proposta da Casa Branca que precisa ser explicado é o custo da adesão ao "conselho de paz". Os países convidados terão que pagar uma espécie de "taxa de adesão" de US$ 1 bilhão (aproximadamente R$ 5,4 bilhões) caso queiram permanecer no grupo por mais de três anos. A ideia de Trump — que se autodeclarou primeiro presidente do conselho, com amplos poderes — é viabilizar a reconstrução de Gaza e a transição de poder para a Autoridade Palestina.

https://www.correiobraziliense.com.br/webstories/2025/04/7121170-canal-do-correio-braziliense-no-whatsapp.html 

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