O Banco Central determinou que o Banco de Brasília (BRB) faça um provisionamento de R$ 2,6 bilhões em seu balanço financeiro para cobrir perdas com as operações de compras de carteiras de crédito sem lastro junto ao Banco Master, liquidado extrajudicialmente pelo BC em novembro de 2025.
Conforme dados da Polícia Federal, que deflagrou a Operação Compliance Zero, em novembro passado, as fraudes nas operações entre o Master e o BRB estão estimadas pelos investigadores em R$ 12,2 bilhões.
A exigência da autoridade monetária foi determinada, por meio de ofício, em 7 de janeiro, após a identificação de que parte das operações bilionárias entre as instituições não possuía garantias reais.
Além do Master, em 18 de novembro, o BC liquidou outras duas subsidiárias do grupo de Daniel Vorcaro, dono do banco: Letsbank e Banco Master Investimento. E, na última quarta-feira, decretou a liquidação de outra subsidiária do Master, o Will Bank, ampliando o rombo do FGC, de R$ 40,6 bilhões para R$ 46,9 bilhões.
O número final, contudo, ainda será discutido entre a autoridade monetária e o próprio banco, que faz uma análise própria sobre os ativos e tem uma margem para contrapor e negociar alternativas com o BC.
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Procurado, o BRB informou, por meio de nota, que trabalha diariamente em conjunto com o Banco Central "e esclarece que todas as operações mencionadas no âmbito da Operação Compliance Zero, que possam estar relacionadas ao banco, estão incluídas na investigação forense independente conduzida pelo escritório Machado Meyer, com suporte técnico da Kroll".
"A instituição reforça seu compromisso com a transparência, a governança e o cumprimento das normas do sistema financeiro, colaborando integralmente com as autoridades competentes. Além disso, o BRB destaca que os possíveis prejuízos ligados à compra de carteiras do Banco Master ainda estão em apuração pelo Banco Central e pela auditoria independente", ressaltou a nota.
Caso sejam confirmados, o BRB informou que já possui plano de capital que prevê aporte por meio de vários instrumentos de recomposição de capital. "O BRB reafirma que segue sólido, com patrimônio líquido de R$ 4,5 bilhões e patrimônio de referência de R$ 6,5 bilhões, operando normalmente e assegurando todos os serviços financeiros", acrescentou.
Prejuízos e lições
Nesta sexta-feira, o FGC informou que já pagou mais de 60% dos valores previstos para a indenização das garantias aos credores do Master, que estão limitadas a R$ 250 mil por CPF. Dessa forma, fundos de previdência de estados e municípios, assim como investidores com valores acima desse limite previsto no FGC, devem esperar a conclusão do processo de liquidação da massa falida para tentarem alguma restituição.
"Agora, é esperar que o interventor faça o processo de liquidação o mais rápido possível, mas há muita gente que vai faturar prejuízo", destacou o economista Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda e sócio da Tendências Consultoria. "Quem comprou letras financeiras e investiu acima de R$ 250 mil no Master vai ter que esperar a conclusão do processo de liquidação do banco. O interventor pode acelerar o processo, mas o que vai restar do Master é que foi a maior fraude financeira da história", frisou.
Na avaliação de Maílson, uma das lições desse caso é que será preciso rever as regras do FGC, uma vez que o valor das indenizações do Master consome quase metade da liquidez do Fundo, em torno de R$ 125 bilhões.
"Não é natural nem aceitável que o FGC comprometa um percentual com um único banco. Então, será preciso rever o limite de indenização, porque outros bancos que contribuem para o Fundo estão arcando com esse prejuízo", alertou. O ex-ministro também sugeriu a criação de regras mais rígidas para o trabalho dos distribuidores de papéis dos bancos. "Muitas instituições ganharam muito dinheiro vendendo os papéis do Master, e os riscos não foram calculados devidamente. Muitos investidores que compraram esses papéis porque confiavam nos intermediadores", alertou ele, lembrando que havia bancos grandes comercializando os Certificados de Depósito Interbancários (CDBs) do Master além do BRB, como Bradesco, Nubank, XP Investimentos. Procurado, o Bradesco não comentou o assunto.
Intervenções
Após três liquidações extrajudiciais em pouco mais de dois meses – Banco Master e duas subsidiárias, da Reag Investimentos e, mais recentemente, da Will Financeira –, o Banco Central foi alvo de tentativas de intervenção do Tribunal de Contas da União (TCU) e do Supremo Tribunal Federal (STF). Contudo, vem dando justificativas técnicas para a decisão de liquidar a instituição do banqueiro mineiro Daniel Vorcaro. Em depoimento à Polícia Federal, o dono do Master atribuiu ao BC a culpa pela quebra do banco.
O economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC e consultor da Pinnotti & Schwartsman Associados, destacou que o modelo de negócios do Master, que pagava no CDB até 140% do CDI (Certificado de Depósito Interbancário), era "difícil de se sustentar" e operava uma forma de compra e venda de carteiras e de títulos que não era visível para os técnicos do Banco Central.
Na avaliação dele, uma regra que precisa ser revista é a de consignados, que também são difíceis de serem monitorados pelo Banco Central. "As operações com a carteira de consignados para aposentados, que eram vendidas pelo Master, estão fora do escopo de monitoramento do BC e isso é algo que é preciso ser pensado", alertou Schwartsman, em referência às fraudes nesse tipo de empréstimo junto aos aposentados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). (Colaborou Iago Mac Cord)
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