O desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói — que estreia no Grupo Especial da Marquês de Sapucaí — promete ser um dos pontos mais controversos do Carnaval carioca. A homenagem que a agremiação fará ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em pleno ano eleitoral, acendeu imediatamente discussões sobre polarização, uso de espaço cultural para fins políticos e o alcance da legislação eleitoral. Sobretudo porque o governo federal formalizou, na semana passada, apoio financeiro ao espetáculo, em um acordo que injeta R$ 12 milhões nas 12 principais escolas do carnaval do Rio de Janeiro (veja no quadro quanto os três Poder Executivo destinará). Cada uma receberá R$ 1 milhão numa ação justificada para reforçar o turismo na capital fluminense no período da festa. O investimento foi comemorado por órgãos do setor como garantia à realização do evento.
A Acadêmicos de Niterói levará para o Sambórdromo o enredo "Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil". A escola abrirá, no dia 15, os primeiro dos dois dias de desfiles do Grupo Especial. O tema foi escolhido em julho de 2024 e o samba-enredo foi apresentado em 21 de setembro de 2025. Na apresentação, a agremiação define Lula como "o político mais bem-sucedido de seu tempo" e destaca a trajetória do ex-operário e líder sindical, eleito três vezes presidente da República.
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"Dentro de um regime democrático, a popularidade é movida por altos e baixos. Mas, ao contrário do pensamento estoico, nem toda vida política caminha para um fim fracassado. E, atualmente, existe apenas um líder no planeta que pode reivindicar tal fama: Luiz Inácio da Silva — o ex-operário que voltou à Presidência do Brasil para cumprir um terceiro mandato. Goste dele ou não, é preciso aceitar: Lula é o político mais bem-sucedido de seu tempo", diz a introdução do enredo da Acadêmicos de Niterói.
Embora a homenagem a uma figura pública, por si só, não seja considerada propaganda eleitoral antecipada, especialistas alertam que determinados trechos do samba e conteúdos do vídeo divulgado pelo PT podem ser enquadrados como tal.
A escolha de um enredo que homenageia Lula explicitamente coloca a Acadêmicos de Niterói no centro de um dilema: se, de um lado, é tradição do Carnaval celebrar personalidades, de outro a combinação de homenagem política e financiamento público abre margem para questionamentos sobre abuso de poder econômico e político, promoção eleitoral e uso de recurso público em benefício de candidato ou partido. O próprio Lula já afirmou que tenta organizar a agenda para estar na Sapucaí, mas não há confirmação de presença. Isso, na avaliação de especialistas ouvidos pelo Correio, tende a ampliar a repercussão política do caso.
Segundo o cientista político Alexandre Bandeira, "a política não vai ter folga, não vai curtir o feriado, nem durante o reinado de Momo — figura central e simbólica do Carnaval brasileiro". Ele ressalta que, na prática, as sanções tendem a recair mais sobre a escola do que sobre o candidato — a menos que se demonstre vínculo direto ou coordenação. O especialista lembra precedente em que anúncios e atos eleitorais antecipados geraram multas (caso relacionado a anúncio de sucessão presidencial resultou em penalidade de R$ 50 mil) e que discussões sobre abuso de poder econômico e político costumam tramitar numa área jurídica sujeita à interpretação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e da Justiça Eleitoral local.
Dinheiro público
Outro ponto que desperta preocupação entre especialistas é o repasse de recursos públicos à escola. A Acadêmicos de Niterói recebeu R$ 1 milhão da Embratur e do Ministério da Cultura, além de R$ 4 milhões da Prefeitura de Niterói e outros R$ 2,15 milhões da Prefeitura do Rio de Janeiro. Embora tratem-se de transferências institucionais, realizadas nos mesmos valores destinados às demais agremiações do Grupo Especial, esses recursos podem ser usados como argumento em eventuais ações contra Lula ou o PT, sob a alegação de que teriam potencial para gerar algum benefício eleitoral para o presidente.
Um termo de cooperação técnica foi assinado entre Embratur e a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), com por intermédio do Ministério da Cultura (MinC). Cassius Rosa, secretário-executivo adjunto do MinC, destacou o caráter estratégico do repasse da verba.
"A gente deu continuidade a um apoio do governo do Brasil ao Carnaval do Rio de Janeiro, reconhecendo sua importância como uma grande vitrine do país para o exterior e, também, reforçando o papel de vetor de desenvolvimento econômico de toda a cadeia produtiva do Carnaval", disse.
Para a Embratur, representada pelo presidente Marcelo Freixo, o investimento é também promoção internacional. "O Carnaval do Rio é uma vitrine global do Brasil. Investir nesse evento é fortalecer a nossa imagem no exterior, impulsionar o turismo e garantir que essa cadeia econômica continue gerando emprego e renda para milhares de pessoas", explicou.
Gabriel David, presidente da Liesa, considera que "esse termo de cooperação dá segurança às escolas do Grupo Especial e reconhece o Carnaval como uma indústria criativa potente, que movimenta a economia, gera empregos e projeta o Rio de Janeiro para o mundo".
Os números do Carnaval reforçam a dimensão econômica que embasa a decisão governamental: visitantes estrangeiros representam 12% do público e vêm de mais de 160 países; entre as Américas, a Argentina lidera (28,7% dos estrangeiros), seguida pelos Estados Unidos (9%). Em 2025, os gastos com hospedagem, alimentação e lazer relacionados ao Carnaval movimentaram R$ 8,8 bilhões no estado do Rio. Um cálculo aproximado é de que o evento movimenta mais de R$ 6 bilhões.
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