Comunicação

Livro analisa como as redes sociais afetam a democracia

As mudanças na comunicação política e os desafios na regulação dessas transformações estão no foco do livro "A nova regra do jogo", lançamento de Arthur Ituassu

Arthur Ituassu: democratização, desinformação, segmentação e radicalização marcam novo paradigma   -  (crédito: Weiler Finamore)
Arthur Ituassu: democratização, desinformação, segmentação e radicalização marcam novo paradigma - (crédito: Weiler Finamore)

A política nunca mais será a mesma por causa das redes sociais. A disrupção provocada pela ascensão da comunicação digital desmontou o tradicional modelo de alianças partidárias e de estratégias de campanha; subverteu o padrão de financiamento eleitoral; e elevou o extremismo político a níveis há muito não vistos. Essas mudanças forçaram uma nova configuração do jogo político, que ficou mais instável e mais perigoso. E, em vários casos, coloca a democracia em xeque.   

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No reino das mídias sociais, um indivíduo sem trajetória política, um "outsider", tem condições de varrer os adversários da corrida eleitoral. Donald Trump e Jair Bolsonaro impuseram novos parâmetros em comunicação política digital, desbancando candidaturas mais alinhadas ao establishment, que determinava o tempo de televisão e grandes acordos partidários como ativos indispensáveis.

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Em passado recente, o fenômeno Pablo Marçal ficou muito perto de disputar o segundo turno com Ricardo Nunes nas eleições para a prefeitura de São Paulo. Faltaram apenas 55 mil votos — uma diferença inferior a 1 ponto percentual em relação ao atual ministro Guilherme Boulos — para o "rei dos cortes" ir para a disputa final na maior cidade do país. Vitoriosos ou derrotados, os políticos desse admirável e assustador mundo novo digital têm forte influência sobre o eleitor. E desafiam o arranjo institucional, muitas vezes ainda preso a uma lógica ultrapassada. 

As mudanças na comunicação política e os desafios na regulação dessas transformações estão no foco do livro A nova regra do jogo, de Arthur Ituassu. Diretor do departamento de Comunicação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), ele também integra grupos de pesquisadores que se dedicam a estudar a erosão democrática em curso em diversos países. 

Em linguagem acessível, mas com rigor e formato acadêmico,  A nova regra do jogo explica a mudança radical que ocorreu no ecossistema midiático ao longo dos últimos 70 anos. Ituassu reconstitui o modelo de broadcasting, marcado por um único emissor de informação, com predomínio da televisão a partir dos anos 1950. Ao longo do tempo, esse modelo foi substituído por um desenho multipolar, no qual diversas fontes de informação passam a interagir.

O momento decisivo ocorre na virada do século 21, com o advento de um sistema pulverizado no ambiente digital. Mais importante: a comunicação entre político e eleitor se desloca dos jornais e da televisão - veículos que serviam como espécie de "guardiões do portão" que dava acesso à opinião pública - e passa a ocorrer diretamente, sem intermediários. Eis aí o ponto de mutação. 

A partir do momento que políticos deixam de depender de uma grande infraestrutura midiática e passam a disseminar suas ideias sem intermediários, a política sofre uma transformação radical. E a democracia passa a enfrentar sobressaltos, com a ascensão de políticos radicais, populistas e de tendência autocrática. No reino das mídias digitais, o radicalismo é um ativo poderoso — e nem sempre precisa ser direcionado a todas as plateias. A segmentação típica das plataformas permite um candidato ter um discurso conservador para um grupo de devotos em determinada rede e, ao mesmo tempo, posar de liberal para uma comunidade estudantil. Não há mais escrúpulos para coerência. 

A realidade fragmentada, recortada, radical e instantânea da política contemporânea impõe quatro consequências marcantes no ambiente digital: democratização, desinformação, segmentação e radicalização. Esse conjunto de fatores, controlado por megaconglomerados da tecnologia, significa, na avaliação de Ituassu, um desafio para uma das grandes conquistas da civilização moderna: a democracia liberal. O autor evita estabelecer uma relação direta entre mídias sociais e a radicalização política, mas traça um paralelo entre as transformações na comunicação do século 21 e a democracia "em recessão prolongada, marcada por retrocessos em direitos, participação, liberdades e representatividade". 

"Ninguém está dizendo que a democracia está em crise por causa das mídias sociais ou das mídias digitais, mas há, sim, uma série de fenômenos hoje relacionados tanto com a crise da democracia quanto com as mídias sociais, como a radicalização da política, a desinformação, a segmentação, a polarização e o retorno do populismo em sua forma digital." 

Livro "A nova regra do jogo - Mídias Digitais, política e democracia", de Arthur Ituassu.
Livro "A nova regra do jogo - Mídias Digitais, política e democracia", de Arthur Ituassu. (foto: Divulgação)

Serviço

A nova regra do jogo: Mídias digitais, política e democracia, de Arthur Ituassu

FGV Editora. Disponível em formato digital e impresso 


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postado em 17/02/2026 03:55
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