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Carnaval de Lula acirra a polarização

Oposição vai denunciar na Justiça Eleitoral desfile na Sapucaí em homenagem a Lula. Governo nega qualquer irregularidade

Boneco do presidente Lula na Sapucaí: além de criticar a
Boneco do presidente Lula na Sapucaí: além de criticar a "bajulação" ao chefe do Executivo, oposição vê propaganda eleitoral antecipada - (crédito: João Salles | Riotur)

A temperatura ferveu horas depois do término do desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, no domingo, que homenageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ontem, o Partido Novo declarou que, assim que Lula anunciar sua candidatura à reeleição, pedirá a inelegibilidade do presidente.

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O presidente do Novo, Eduardo Ribeiro, disse que o partido entrará com uma ação para cassar o registro da candidatura do presidente Lula por abuso de poder político e econômico em razão da homenagem na Sapucaí. Segundo colocado nas pesquisas para a corrida presidencial, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) também anunciou que tomará medidas judiciais.

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Senadores, deputados, governadores e até ex-presidente inundaram as redes sociais com críticas ao desfile, acusando o Lula de propaganda eleitoral antecipada. O governo reagiu, afirmando, por nota, que o desfile não pode ser caracterizado como propaganda eleitoral antecipada, já que não houve pedido explícito de voto. Também em nota, o PT seguiu linha de defesa semelhante.

Flávio Bolsonaro publicou um vídeo no qual acusa o presidente Lula de usar recursos públicos para financiar a escola de samba e promover uma campanha antecipada. Essa acusação, entretanto, não corresponde aos fatos. O governo federal liberou R$ 12 milhões para a Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro — R$ 1 milhão para cada agremiação do Grupo Especial. "Lula esfola o povo com aumento de impostos e usa esse mesmo dinheiro arrecadado para fazer campanha antecipada para ele mesmo", criticou Flávio Bolsonaro.

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) desaprovou a forma como o ex-presidente Jair Bolsonaro foi retratado. Uma das alegorias retratou Bolsonaro como um palhaço, atrás das grades e com uma tornozeleira eletrônica rompida. "Só para registrar um fato histórico: quem foi preso por corrupção foi Luiz Inácio Lula da Silva. Isso é registro judicial, não opinião", disse Michelle em sua rede social.

O ex-presidente da República Michel Temer, que foi retratado em um dos carros arrancando a faixa presidencial da ex-presidente Dilma Rousseff, quando a substituiu após o impeachment, também reagiu. Disse que "a sátira política é parte da tradição do carnaval. E, como defensor da liberdade de expressão e da liberdade artística, não julgo as escolhas feitas como tema na avenida".

Temer, no entanto, afirmou que o enredo não passa de bajulação. "O problema é quando adotam o ilusionismo na Esplanada, promovendo a irresponsabilidade fiscal, juros altos e o endividamento público crescente — e negando conquistas, como as reformas trabalhista, do ensino médio e da Previdência."

O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo-MG), afirmou que vai acionar judicialmente a Acadêmicos de Niterói. Ele criticou a ala em que os evangélicos estavam dentro de latas. "O Brasil é um país de muita fé, são mais de 50 milhões de evangélicos. Isso não é arte, é desrespeito. Isso é preconceito religioso e isso é crime, por isso estou entrando com uma ação na Justiça", disse.

O líder do PL no Senado, Carlos Portinho (RJ), também atacou a agremiação. Disse que não se deve misturar política com cultura. "Vale também para o desfile dessa escola de samba. No caso, ainda pior, concorrendo para um grave ilícito eleitoral. Propaganda antecipada com dinheiro do pagador de impostos. Rebaixamento é o mínimo que merece", afirmou o parlamentar em sua rede social.

Sergio Moro (União Brasil-PR) declarou que o desfile foi um espetáculo de abuso de poder. "Faltou o carro da Odebrecht e do Sítio de Atibaia no desfile do Lula. Foi um deprimente espetáculo de abuso de poder, com enaltecimento de Lula, sem escândalos de corrupção e com ataques aos adversários, tudo financiado pelo governo. A Coreia do Norte não faria melhor."

Segundo o Partido dos Trabalhadores a homenagem foi uma manifestação artística autônoma da escola de samba, sem participação, financiamento ou coordenação do partido ou do próprio presidente. A legenda sustenta que a apresentação está protegida pela liberdade de expressão artística garantida pela Constituição, respaldada pela jurisprudência do STF e do TSE, que reconhece manifestações culturais espontâneas como legítimas, inclusive em contextos políticos. Também argumenta que, segundo a Lei das Eleições, a exaltação de qualidades pessoais de um agente político por terceiros — sem pedido explícito de voto — não configura propaganda eleitoral antecipada.

O partido destaca ainda que o TSE já indeferiu pedidos liminares sobre o caso e que não há base jurídica para discutir inelegibilidade relacionada ao episódio. Por fim, reafirma que atua em conformidade com a legislação eleitoral, orientou previamente seus filiados e manifesta respeito às instituições e à Justiça Eleitoral.

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O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) criticou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), afirmando que o órgão fingiu não ver o desfile como campanha eleitoral antecipada. "Ontem o TSE, sempre tão rigoroso, preferiu fingir que o desfile com propaganda explícita ao Lula na Marquês de Sapucaí não foi propaganda eleitoral antecipada, mas sim 'cultura'. Enquanto isso, Bolsonaro segue inelegível por muito menos. Sob o pretexto de cultura, vimos dinheiro público federal financiar um verdadeiro desfile-comício em rede nacional. Teve enredo, alegorias e transmissão exaltando o presidente e seus programas de governo. Surreal".

Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder do PL na Câmara dos Deputados, ironizou que a escola Acadêmicos de Niterói esqueceu de incluir as condenações do presidente Lula. "Se o objetivo da escola de samba fosse contar a história do Lula, faltou no enredo falar a principal parte: as condenações em três instâncias por corrupção e lavagem de dinheiro do descondenado. Se o objetivo fosse artístico, tudo seria contado no enredo; como não falaram disso, fica provado que é proselitismo eleitoral, abuso de poder econômico e campanha antecipada. Crimes eleitorais. Alô @TSEjusbr."

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postado em 17/02/2026 03:55
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