O presidente Luiz Inácio Lula da Silva confirmou, ontem, em entrevista ao UOL, que pretende viajar a Washington, "possivelmente", na primeira semana de março para uma conversa direta com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Segundo ele, o encontro deve tratar de interesses comuns e buscar acordos entre as duas maiores democracias do Ocidente.
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Segundo Lula, a reunião ocorrerá após compromissos internacionais na Índia e na Coreia e terá como objetivo promover um diálogo franco entre os governos. "Nós somos o presidente das duas maiores democracias do Ocidente, nós temos que sentar numa mesa, olhar um no olho do outro", declarou.
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Entre os temas previstos estão parcerias industriais, exploração de minerais críticos, investimentos e ampliação das exportações. O presidente, porém, ressaltou que há um limite inegociável nas tratativas: "A única coisa que eu não discuto é a soberania do meu país. Essa é sagrada."
Lula também afirmou estar disposto a tratar de qualquer assunto com o governo norte-americano, desde que haja respeito mútuo, e disse que a intenção é estabelecer acordos que permitam aos dois países "trabalhar juntos" e enfrentar problemas comuns.
Na entrevista, o presidente revelou que já compartilhou informações com Trump para incentivar uma cooperação direta no combate ao crime organizado e ao narcotráfico. Segundo ele, materiais preparados pela Receita Federal e pela Polícia Federal foram enviados ao governo norte-americano.
"Mandei material preparado pela minha Receita Federal, pela Polícia Federal, mandei as empresas, mandei os cinco navios que estão presos aqui", afirmou. Lula relatou ainda ter indicado um caso específico (de tráfico de drogas) e fornecido endereço e fotografia de um procurado pela Justiça que residia em Miami.
O presidente adiantou que pretende levar uma comitiva de autoridades na viagem aos Estados Unidos, incluindo o ministro da Justiça, o diretor-geral da Polícia Federal, o secretário da Receita Federal e o procurador-geral da República. "Se quiser combater o crime organizado e o narcotráfico, o Brasil está aqui na linha de frente", disse.
Venezuela
Ao abordar o cenário latino-americano, Lula defendeu maior integração política e econômica entre os países da região. Para ele, a história de mais de cinco séculos demonstra a necessidade de aprender com experiências passadas e ampliar a cooperação.
O presidente relembrou que o comércio entre Brasil e Argentina era de cerca de US$ 7 bilhões quando assumiu a Presidência, em 2003, e chegou a US$ 39 bilhões ao final de seu mandato, resultado de uma mudança na lógica da política externa brasileira. Segundo Lula, o período entre 2002 e 2012 foi "o melhor período de política social e inclusão social e de crescimento da história da América do Sul".
Sobre a Venezuela, afirmou que a solução para a crise deve partir dos próprios venezuelanos e que a condução dos rumos do país não deve ser imposta por atores externos. "Quem vai resolver o problema da Venezuela são os venezuelanos. Permitam que eles resolvam os problemas deles", declarou. A prioridade, segundo ele, é fortalecer a democracia e melhorar as condições de vida da população, incluindo o retorno de milhões de pessoas que deixaram o país.
Lula também defendeu a criação de instituições latino-americanas mais fortes e alertou que a falta de integração pode condenar a região "a mais um século de pobreza e esquecimento". Para o presidente, a América do Sul é uma "zona de paz" e deve concentrar esforços no crescimento econômico e no fortalecimento democrático.
Banco Master
Na mesma entrevista, Lula afirmou que o governo não adotará posição política em relação ao Banco Master e que eventuais irregularidades devem ser analisadas tecnicamente pelo Banco Central. A orientação, segundo ele, é aprofundar as investigações para identificar possíveis responsáveis por prejuízos ao sistema financeiro.
O presidente relatou ter recebido o empresário Daniel Vorcaro após pedido intermediado pelo ex-ministro da Fazenda Guido Mantega. Segundo Lula, o empresário afirmou estar sofrendo perseguição e pressões do mercado.
"Não haverá posição política pró ou contra o Banco Master, o que haverá será uma investigação técnica feita pelo Banco Central", disse. "A política não entrará em evidência. O que vai entrar é a competência técnica do Banco Central para saber se está errado, se você quebrou, se tem dinheiro lavado ou não tem."
Ele contou que chamou o filho Lulinha ao Palácio do Planalto para uma conversa. "Quando saiu o nome do meu filho, chamei ele e disse: 'Só você sabe a verdade. Se você tiver alguma coisa, vai pagar o preço, mas se não tiver, se defenda'", narrou.
Lula afirmou ainda ter convocado o ministro da Fazenda, o presidente do Banco Central e o procurador-geral da República para discutir o caso, que pode representar "a primeira chance real de pegar os magnatas da corrupção, da lavagem de dinheiro nesse país".
"Não me importa quem envolva — político, partido ou banco. Quem tiver metido nisso vai ter que pagar o preço da irresponsabilidade", acrescentou.
Questionado sobre a divulgação de um contrato do escritório do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski com o banco, Lula saiu em defesa do jurista. "O Lewandowski é um dos maiores juristas que esse país já produziu. Todo e qualquer bom jurista é contratado por qualquer empresa que esteja com qualquer dificuldade", afirmou.
O presidente também cobrou esclarecimentos sobre a aplicação de recursos públicos na instituição e citou depósitos de fundos de trabalhadores por governos estaduais.
Economia
Lula voltou a defender a redução da jornada de trabalho e disse que pretende dialogar com o Congresso Nacional para aprovar mudanças na escala 6x1. "Está na hora de a gente fazer uma mudança na jornada de trabalho neste país, para que o povo tenha mais tempo de estudar, de pensar", afirmou.
Segundo o presidente, o avanço tecnológico elevou a produção e permite reavaliar o modelo atual. "Hoje, um jovem, uma menina, ele não quer mais levantar cinco horas da manhã e ficar até seis horas dentro de uma fábrica, pegando um ônibus lotado", disse.
Ao comentar o cenário econômico, Lula avaliou que os dados positivos de sua gestão ainda não se converteram em votos porque "não tem campanha ainda". Para ele, 2026 será o "ano da colheita" após um período dedicado a reconstruir políticas públicas e retomar obras paralisadas.
O presidente também criticou agentes do mercado que, segundo ele, reclamam dos gastos do governo e não consideram os impactos sociais das medidas. Lula defendeu o aumento real do salário mínimo e afirmou confiar no trabalho do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, apesar de considerar a taxa básica de juros elevada.
"O país só voltou a crescer acima de 3% ao ano quando eu voltei para a Presidência da República", declarou, ao rebater previsões pessimistas sobre a economia.
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