A Polícia Federal finalizou o inquérito em que o presidente afastado da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Rodrigo Bacellar (União), e o ex-deputado estadual Thiego Raimundo de Oliveira Santos, o TH Joias, são suspeitos por suposto envolvimento em um esquema de tráfico de influência e interferência institucional no estado. O relatório foi encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF), onde ficará sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes.
Segundo a PF, os investigados teriam atuado em articulações que envolvem organização criminosa, obstrução de investigação e favorecimento pessoal. Caberá ao STF analisar o material e decidir sobre os próximos passos do caso. Eles são apontados como braço político da fação Comando Vermelho (CV).
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Além de Bacellar e TH Joias, também foram indiciados Flávia Judice, Jéssica Santos e Thárcio Salgado, identificado como ex-assessor parlamentar. De acordo com a investigação, este último teria exercido o papel de operador financeiro em um contexto apurado de ligação com a facção criminosa.
O desembargador do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2), Macário Judice Neto, que chegou a ser preso durante as apurações, não foi formalmente indiciado. A PF informou que a Lei Orgânica da Magistratura impede o indiciamento de magistrados na fase policial. A situação dele será analisada pela Procuradoria-Geral da República (PGR).
O inquérito reúne interceptações telefônicas, quebras de sigilo bancário e telemático, imagens de câmeras de segurança e dados extraídos de celulares. Segundo a PF, as provas apontam para a existência de articulações entre agentes políticos e integrantes do Judiciário fluminense, além do uso de linhas telefônicas registradas em nome de terceiros para ocultar comunicações.
Também foram apreendidos documentos no gabinete de Bacellar. Entre o material, há registros de pedidos atribuídos a congressistas e indícios de manobras para ocultar movimentações financeiras. A investigação ainda aponta possíveis tentativas de uso da estrutura pública para fins eleitorais e interesses pessoais.
Entenda o caso
TH Joias foi detido em 3 de setembro por tráfico de drogas, corrupção e lavagem de dinheiro. Ele é suspeito de negociar armas — como fuzis — e equipamentos antidrones para o CV e de usar o mandato para favorecer a facção criminosa.
A suspeita de vazamento da Operação Zargun foi levantada pelo procurador-geral de Justiça do Rio de Janeiro, Antonio José Campos Moreira, no dia da prisão de TH Joias. Naquele mês, ele anunciou a abertura de investigação sobre possível vazamento de informações da operação, após indícios de tentativa de fuga e destruição de provas. As investigações da Operação Zargun identificaram um esquema de corrupção envolvendo a liderança do CV no Complexo do Alemão e agentes políticos e públicos, incluindo um delegado da PF, policiais militares e TH Joias.
A organização, segundo a PF, se infiltrou na administração pública "para garantir impunidade e acesso a informações sigilosas, além de importar armas do Paraguai e equipamentos antidrone da China, revendidos até para facções rivais".
Unha e carne
Rodrigo Bacellar foi preso em 12 de dezembro pela PF, no âmbito da Operação Unha e Carne. A ordem de prisão foi expedida pelo ministro Alexandre de Moraes, relator da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 635, a chamada "ADPF das Favelas". De acordo com o magistrado, os federais argumentaram que Bacellar orientou TH Joias na "remoção de objetos de sua residência", indicando um envolvimento direto "no encobrimento do investigado à atuação dos órgãos de persecução penal".
O ex-presidente da Alerj renovou o pedido de licença do mandato e da função de comando do Poder Legislativo fluminense. Ele estava à frente da Assembleia desde 2023, mas pediu afastamento do cargo em 10 de dezembro do ano passado. Nesse período, chegou a ocupar interinamente o cargo de governador na ausência do titular Cláudio Castro (PL).
Cinco dias depois da prisão, o plenário da Alerj decidiu, por 42 x 21, pela soltura de Bacellar. "Em relação ao presidente da Assembleia Rodrigo Bacellar, inexiste qualquer elemento probatório para pretender lhe imputar qualquer participação em ilicitude e ou vazamento, ao contrário, só há ilações desamparadas. Dessa forma, arbitrário e abusivo o indiciamento efetivado, realizado muito mais para justificar a ação açodada da Autoridade Policial, do que respaldada em elementos sérios e comprometedores", declarou o advogado criminalista Daniel Leon Bialski, que defende o ex-presidente da Alerj.
Bacellar era apontado como o nome que Cláudio Castro apontaria para disputar, com seu apoio, o Palácio Gunabara, em outubro. O ex-presidente da Alerj concorreria ao cargo como representante do bolsonarismo, mas a possibilidade de envolvimento com o CV fez com que fosse abandonado na disputa eleitoral. (Com Agência Estado)
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