
A participação de dois filhos de Jair Bolsonaro — o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro e o deputado cassado Eduardo — na edição deste ano da CPAC, no sábado, possibilitou aos apoiadores do governo retomarem as acusações de que o clã chefiado pelo ex-presidente age para prejudicar os interesses do Brasil.
Na conferência conservadora, realizada na cidade texana de Dallas, os dois pediram para que os Estados Unidos "monitorem" as eleições de outubro e voltaram a insistir na mentira de que Luiz Inácio Lula da Silva venceu, em 2022, por meio de fraude e com a ajuda do ex-presidente norte-americano Joe Biden. Foram além: acusaram o presidente de ser "antiamericano" e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de agir exclusivamente para prejudicar os Bolsonaro.
Uma das reações mais contundentes foi a do ministro da secretaria-geral da Presidência da República, Guilherme Boulos. Ele classificou a participação de Flávio como o fato mais grave das eleições de 2026 até aqui, afirmando que o senador estaria "oferecendo as riquezas e o futuro do povo brasileiro a uma potência estrangeira". "Flávio Bolsonaro se comprometeu publicamente a entregar as terras raras e minerais críticos do Brasil aos EUA se for eleito presidente. Este cidadão está oferecendo as riquezas e o futuro do povo brasileiro a uma potência estrangeira em troca de apoio. Entenderam o que vai estar em jogo em outubro?", questionou em publicação nas redes sociais.
A ministra-chefe da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência, Gleisi Hoffmann, classificou os membros da família Bolsonaro de "vendilhões da pátria". Ela criticou as "juras de subserviência" ao presidente norte-americano Donald Trump e relembrou o histórico da gestão Bolsonaro na pandemia de covid-19 e na economia, para afirmar que o grupo, agora, se dedica a "espalhar mentiras sobre o Brasil" no exterior.
O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) subiu o tom ao rotular Flávio como "marionete de Trump" e "traidor da pátria". Para o parlamentar, a postura representa um "entreguismo" que compromete a autonomia tecnológica do país. É o retrato do bolsonarismo: servil, vira-lata, entreguista e sem qualquer compromisso com a soberania brasileira. Quem age assim não defende o Brasil, trabalha para rebaixar o país, enfraquecer nossa capacidade de decisão e abrir espaço para que interesses dos Estados Unidos ditem os rumos do nosso território, da nossa economia e do nosso futuro", escreveu em seu perfil no X (antigo Twitter).
A reação da base aliada também focou no apelo de Flávio para que o "mundo livre" exerça pressão diplomática sobre as instituições e as eleições brasileiras. A deputada Erika Hilton (PSol-SP) acusou a família de recorrer a uma "invasão ideológica e digital" ao pedir interferência direta do governo dos Estados Unidos no pleito de outubro.
No mesmo sentido, o deputado Tarcísio Motta (PSol-RJ) advertiu que uma eventual vitória de Flávio resultaria no escoamento das riquezas nacionais diretamente para os EUA, "uma ameaça sem precedentes" à independência do Brasil.
Vigilância das eleições
Na CPAC, os filhos 01 e 03 fizeram um apelo formal para que os EUA e o "mundo livre" exerçam pressão diplomática sobre o Brasil. Eduardo, inclusive, apresentou o irmão como o "próximo presidente do Brasil".
O senador foi explícito ao clamar que a comunidade internacional monitore a "liberdade de expressão" dos brasileiros nas redes sociais e acompanhe de perto o processo de contagem de votos das eleições de outubro. "Se o nosso povo puder se expressar livremente nas redes sociais, e se os votos forem contados corretamente, nós venceremos. Meu apelo não é apenas aos Estados Unidos, mas a todo o mundo livre: observem as eleições do Brasil com enorme atenção", convocou.
Segundo Flávio, o Brasil é a solução estratégica para que os EUA rompam a dependência da China em relação a minerais críticos. O pré-candidato do PL frisou que o governo de Beijing controla 70% da mineração global e mais de 90% do refino e processamento desses materiais. "Sem esses componentes, a inovação tecnológica americana torna-se impossível e a produção dos sistemas militares avançados cai nas mãos de adversários. Quando a América se torna vulnerável, todo o mundo livre se torna vulnerável", defendeu.
Flávio argumentou, ainda, que, sob sua gestão — que ele define como "Bolsonaro 2.0" —, o Brasil garantiria cadeias de suprimentos seguras para a indústria de defesa e tecnologia norte-americanas, combatendo a "agenda ambiental radical" e a "agenda woke".
Autoexilado nos Estados Unidos há mais de um ano — cuja consequência foi a cassação do mandato de deputado federal por excesso de faltas e um processo interno que pode levar a ser exonerado da Polícia Federal (PF) —, Eduardo afirmou que "se eu voltar para o meu país agora, é muito provável que me prendam, não por envolvimento com cartéis de drogas ou corrupção, mas apenas por falar abertamente contra um violador de direitos humanos chamado Alexandre de Moraes". Não há, porém, contra o ex-parlamentar qualquer mandado de prisão expedido pelo STF.
Tarifaço
Não é a primeiria vez que os Bolsonaro se envolvem em questões que prejudicam os interesses brasileiros. No ano passado, Eduardo e o influenciador Paulo Figueiredo conseguiram convencer setores do governo Trump a impor ao Brasil um tarifaço nas exportações para os EUA por causa do julgamento do ex-presidente, no STF, por chefiar uma organização criminosa que tentou dar um golpe de Estado. Inicialmente, o filho 03 admitiu que foi sua influência que levou a Casa Branca a tomar tal decisão, mas, depois, diante da repercussão negativa, voltou atrás e desmentiu.
Também agora, os Bolsonaro estariam por trás das gestões junto ao governo Trump para considerar as facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. Essa classificação, se adotada pelos EUA, permitiria que a Casa Branca autorizasse ações militares em território nacional, além de impor uma série de restrições ao Brasil. O Ministério das Relações Exteriores tem feito negociações nos bastidores para evitar que PCC e CV sejam enquadrados como uma ameaça à soberania norte-americana.
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