
O 7 de abril, Dia do Jornalista no Brasil, chega em 2026 marcado por um cenário que combina avanços institucionais com novas ameaças à liberdade de imprensa. A data, instituída em 1931 pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI) em homenagem a Líbero Badaró — morto em 1830 por defender a liberdade de expressão —, ganha ainda mais relevância em um ano eleitoral, período historicamente associado ao aumento de ataques contra profissionais da mídia.
Levantamento divulgado nesta terça-feira (7/4) pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) revela que, em 2025, foram registrados 66 casos de violência não letal contra jornalistas e veículos de comunicação no país, envolvendo ao menos 80 profissionais. Embora represente uma queda em relação ao ano anterior, os números mantêm um ritmo preocupante. A cada cinco dias, houve ao menos um episódio de agressão à imprensa.
Os dados mostram que a violência física voltou a liderar as ocorrências, concentrando 39% dos casos. Foram 26 episódios, com crescimento tanto no número de registros quanto no de vítimas. A maior parte dos ataques ocorreu na Região Sudeste, responsável por 38% das ocorrências, seguida por Centro-Oeste e Nordeste.
O perfil dos agressores também chama atenção. Políticos e ocupantes de cargos públicos aparecem como principais responsáveis pelos ataques, seguidos por torcedores e integrantes de organizações esportivas. Profissionais de televisão foram os mais atingidos, reflexo da exposição em coberturas de rua e transmissões ao vivo.
Além das agressões físicas, o relatório aponta aumento significativo de intimidações, 10 casos registrados, com alta de 40% em relação a 2024. Também houve registros de ameaças de morte, detenções e episódios de censura, estes últimos com crescimento de 57%. Em diversas regiões, equipes de reportagem foram impedidas de exercer o trabalho.
Ambiente digital hostil
Se nas ruas os números preocupam, no ambiente digital o cenário é ainda mais amplo. Segundo levantamento da empresa Bites, especializada em análise de dados, cerca de 900 mil ataques à imprensa foram registrados ao longo de 2025, uma média de quase 2,5 mil por dia.
Expressões depreciativas voltaram a circular com força nas redes sociais, associando o jornalismo a termos como “lixo” e “golpista”. Parte desse movimento foi impulsionada por reações à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro e aos desdobramentos dos atos de 8 de janeiro de 2023.
Nesse ambiente, surge um novo vetor de preocupação, o uso de ferramentas de inteligência artificial para amplificar campanhas de desinformação. Plataformas como ChatGPT, Claude, Gemini e Grok passaram a integrar o ecossistema de disputa narrativa, sendo utilizadas tanto para consulta quanto, potencialmente, para manipulação de conteúdos.
O estudo mostra que uma das perguntas mais frequentes feitas a essas ferramentas no Brasil é sobre o suposto viés ideológico da imprensa. A recorrência desse tipo de questionamento revela um ambiente de desconfiança crescente e alimenta narrativas que buscam deslegitimar o trabalho jornalístico.
Inteligência artificial e eleições
Para o presidente-executivo da Abert, Cristiano Lobato Flôres, o avanço da inteligência artificial representa um novo patamar de risco, especialmente em períodos eleitorais. Segundo ele, já há indícios do uso dessas tecnologias para distorcer conteúdos, alterar falas de jornalistas e criar campanhas coordenadas de desinformação.
“Nós podemos ver um aumento dos ataques virtuais já no ano de 2025 com a utilização das plataformas de inteligência artificial. É onde você consegue organizar campanhas de desacreditação do trabalho da imprensa e que você também consegue fazer utilização tecnológica com modulação de voz, alterando inclusive falas realizadas por profissionais de comunicação, alterando a realidade e o contexto de matérias jornalísticas”, disse em coletiva de imprensa após a apresentação do relatório.
A preocupação levou à adoção de regras pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que restringem o uso de inteligência artificial nos dias que antecedem a votação e ampliam a responsabilidade das plataformas digitais. Ainda assim, o desafio é considerado de difícil mensuração.
Ao mesmo tempo, Flôres avalia que o cenário reforça a importância do jornalismo profissional. Em meio à proliferação de conteúdos manipulados, cresce a demanda por informação verificada e contextualizada, especialmente durante campanhas eleitorais, quando o eleitor depende diretamente da cobertura jornalística para formar opinião.
Avanços e contradições
Apesar das tensões, o Brasil apresentou melhora no cenário internacional. De acordo com a Repórteres sem Fronteiras, o país ocupa atualmente a 63ª posição no ranking global de liberdade de imprensa, avanço significativo em relação a 2021, quando estava na 111ª colocação.
A melhora é atribuída, em parte, à recomposição da relação entre imprensa e o Poder Executivo após o fim do governo anterior. Ainda assim, o ambiente permanece desafiador, sobretudo diante da polarização política e da escalada de ataques virtuais.
No plano global, o alerta permanece aceso. Dados da UNESCO indicam que mais de 1,8 mil jornalistas foram mortos no mundo entre 2006 e 2025, com cerca de 90% dos casos sem solução, um retrato da fragilidade estrutural da proteção à atividade.

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