O ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado se declara um político de entregas. Recém-filiado ao PSD, ele apresenta as conquistas que obteve no comando do estado como credenciais para se lançar pré-candidato à Presidência da República. "Acredito que a eleição de 2026 será um divisor e que vamos romper as bolhas da polarização. O Brasil não pode continuar vivendo esta situação na qual não se discutem temas relevantes para a vida das pessoas", afirmou aos jornalistas Carlos Alexandre de Souza e Denise Rothenburg, no programa CB.Poder, parceria entre o Correio e a TV Brasília. A entrevista abre a série de sabatinas que o Correio fará com pré-candidatos à Presidência.
Aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro, Caiado admitiu que houve "vários erros" na gestão do político do PL. "Se ele tivesse governado bem, o Lula não teria sido eleito", enfatizou.
Ele não poupou críticas à polarização e classificou o governo federal de "acéfalo", que, segundo ressaltou, só discute a polarização. "Não está preocupado com educação, com saúde, com segurança pública, nem com a dívida das pessoas." Também disse que nos governos do PT "a grande evolução no Brasil foi a das facções criminosas; o PCC e o Comando Vermelho são as maiores multinacionais brasileiras".
O pré-candidato se disse "um democrata na essência", que já ganhou e perdeu eleições, mas nunca contestou uma votação. "Isso é democracia. Não podemos regredir e ficar nesse debate primário e primitivo", frisou. Mesmo assim, reiterou que, se eleito, vai anistiar Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, e livrar, também, os extremistas do 8 de Janeiro. A seguir, os principais trechos da entrevista.
O que o senhor traz de novo? O que o eleitor pode esperar do seu programa de governo, especialmente na área da economia?
O que eu trago de novidade é dizer que sou um político que não é de "likes" nem de polarização. Sou um político de entregas. Se cheguei ao patamar hoje de ser reconhecido com índices que oscilam de 85% a 88% no meu estado foi porque me preocupei em atender as pessoas e dar a dimensão de que Goiás precisava, tirando-o da corrupção e da criminalidade. É o primeiro lugar na educação, o primeiro lugar na inteligência artificial e na transparência dos gastos públicos. Temos os programas sociais que mais emancipam e obras de investimento, tendo um percentual do orçamento mais alto que já se viu no meu estado, resgatando o equilíbrio fiscal. Goiás era "Capag C" e está indo para "Capag B"; não tinha a menor condição sequer de contrair um empréstimo. Então, essas mudanças mostram que tratamos de todas aquelas áreas que são funções de um governador de estado. Não fiquei restrito a um item no governo. É lógico que a segurança pública deu o alicerce da governabilidade e, a partir daí, fomos avançando em cada área.
O governo federal está muito preocupado com o aumento dos preços dos combustíveis provocado pela guerra no Irã. Qual é a sua avaliação?
Não há nada que ateste mais a incompetência do governo do que essas crises recidivantes no problema de combustível, porque o Brasil tem hoje toda a nossa bacia petrolífera explorada. Temos o pré-sal e a capacidade de produzir energia e combustíveis próprios. Em Goiás, por exemplo, eu já estou produzindo biometano nas usinas de lixo e nas usinas de cana-de-açúcar, com a finalidade de ser o combustível mais sustentável que existe no mundo. A minha frota na região metropolitana de Goiânia circula toda com biometano. O Brasil, até hoje, não foi independente do ponto de vista de combustíveis porque realmente não teve uma política de continuidade. Como nós fizemos etanol e fizemos biometano, podemos avançar no diesel, em 15% de biodiesel, e na gasolina, em até 35% de etanol. Não temos uma refinaria hoje que funcione para atender a toda essa nossa produção de pré-sal, que é combustível fóssil, mas é um combustível leve, diferente dos outros poços de petróleo do Brasil. Então, você tem toda uma mudança de conceito na qual o Brasil ficou parado. O país não avançou em tecnologia, em inovação, nem em independência. Hoje, temos independência alimentar, mas não temos independência de produção de combustíveis nem de energia.
Como avalia a proposta do governo de subvenção e de renúncia fiscal em relação aos combustíveis?
É um assalto aos estados e municípios. Assalto. Sabe por quê? Porque o governo nunca viu o que está ganhando de royalties hoje com o barril de petróleo a esse preço. O que ele está faturando de royalties hoje merece ser calculado dentro de planilhas corretas; uns falam um número, outros falam outro, e há quem fale em até R$ 50 bilhões. Outra coisa, ele impôs algo que o Estado não pode impor. Eu, por exemplo, como governador, não podia dizer que tenho um imposto de exportação da soja. Não lançamos imposto sobre exportação, mas o governo brasileiro criou — fato inédito — um imposto de exportação de petróleo, que é o que ele mais faz. Então, hoje, isso na balança comercial deve ser um dos maiores faturamentos do governo. E ele ainda falou em dar subvenção, dividindo uma parte dele e uma parte dos estados, o que atinge o município também. Isso é a falta de um governo capaz de saber que ele tem de ter políticas estruturantes na área de energia, de combustíveis, e, amanhã, condições de inteligência artificial para avançar nessas áreas que serão as grandes demandas do mundo. Do ponto de vista alimentar, é a única coisa que o PT combateu a vida toda e é o único setor no qual somos mundialmente respeitados. Essa área da produtividade, com respeito ao meio ambiente e com as tecnologias mais modernas que existem no mundo. Portanto, é um governo acéfalo; é um governo que se preocupa em discutir a polarização. Ele não está preocupado com educação, com saúde, com segurança pública, nem com a dívida das pessoas. Os números são estratosféricos. Uns falam que 50% do que a pessoa recebe por ano já está comprometido com dívidas. Outros dizem que 80% das famílias brasileiras estão endividadas. O governo diz: "Ah, eu vou fazer o Desenrola e vou pegar um outro programa para tentar resolver". Mas como você vai resolver se a causa determinante é uma taxa de juros de 14,75%? É um falso positivo. "Eu vou dar para você, vou liberar o FGTS, vou fazer uma linha de crédito"; só que a pessoa vai quitar aquilo e, em pouco tempo, o cartão de crédito ou o empréstimo dela estará em 14,75% ou chegará a 22% ou 25% no mercado.
O governo é responsável por essa taxa? Não é o Banco Central?
Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Zero. Isso é importante: o Banco Central simplesmente controla um processo no qual o governo é o maior tomador do dinheiro. Juros são exatamente o preço que você paga pelo dinheiro. Ora, se o governo é o que mais se endivida...
Então, é o governo que leva o Banco Central a tomar essa atitude?
Lógico. O Banco Central é obrigado a tomar medidas para conter aquilo em que o governo é irresponsável, perdulário e gastador. Você vê que ele aumentou a dívida brasileira, em três anos, em R$ 870 bilhões. A dívida brasileira era 72% do PIB e hoje é quase 80%. Mas não vamos falar assim, pois fica difícil para as pessoas entenderem; vamos falar em números: o governo aumentou o endividamento em mais de R$ 870 bilhões. Onde ele buscou esse dinheiro? No mercado. O que o Banco Central tem de fazer? Ou você controla seu gasto, ou teremos de aumentar a taxa de juros, porque o risco hoje é muito alto, e ninguém quer emprestar.
Essa bomba fiscal vai estourar em 2027, independentemente de quem ganhar.
Sim, mas foi o que houve no governo Dilma 2. O modelo petista é o mesmo. A Dilma sacrificou quatro milhões de empregos com tudo aquilo que fez no seu primeiro mandato. Quando chegou ao segundo mandato, ela viu exatamente isso. Só que agora o Lula foi tão gastador, populista e totalmente irresponsável com as contas públicas, porque não se governa sem equilíbrio fiscal, isso é condicionante. Não, ele virou as costas para isso. "Não interessa, mande rodar a maquininha, mande produzir dinheiro, e eu vou despejar dinheiro, porque depois vem a produção e melhora o problema." Isso nós já sabemos, a Dilma já fez.
Bolsonaro fez também, não é?
Não, veja bem. Eu acho que o Bolsonaro cometeu vários erros. Primeiro lugar: se ele tivesse governado bem, o Lula não teria sido eleito; nisso eu concordo. Agora, você só viu a dívida/PIB aumentar no governo dele durante a pandemia. Quando ele entregou o governo, a proporção dívida/PIB era de 72%. Houve um acréscimo da dívida, e todos os países do mundo tiveram, em decorrência dos gastos no combate à pandemia. Fora isso, você viu que ele entregou a 72%, e hoje está a quase 80%. Ou seja, são mais de R$ 870 bilhões que o governo gastou.
Quem será o seu ministro da Fazenda?
Eu tenho escutado muito, mas sempre com o respeito que tenho. Não me arvoro aqui, não vou posar como aquele que sabe tudo. Tenho sensibilidade, como demonstrei ao governar Goiás. As mudanças que precisam ser feitas são claras, não há grandes descobertas. É preciso fazer reformas, como eu fiz. Recebi um estado com R$ 11 milhões em caixa, R$ 6,8 bilhões em dívidas imediatas e R$ 17 bilhões em dívidas consolidadas. Entrego o governo hoje com R$ 9,8 bilhões em caixa, pagando tudo em dia. Educação em primeiro lugar, saúde regionalizada, segurança pública com tecnologia e inteligência artificial, avanços na área ambiental. Tudo isso é desenvolvimento do estado onde se tem gestão e cuidado com o gasto público. Não roubando e não deixando roubar, o estado se transforma. Goiás hoje é outro. Tenho certeza de que entregaremos ao meu vice-governador um outro estado. Goiás hoje é referência em qualquer área. Somos referência naquilo que o Lula está discutindo hoje. Veja que este governo não se atenta para nenhum fato importante: não tem política de combustível, mineral, de inteligência artificial ou energética. Só discutem o 8 de janeiro. "É golpe, não é golpe."
Como médico, o senhor teve uma postura completamente diferente do governo Bolsonaro, o qual apoiava, na pandemia. O que pretende trazer de novo nessa área?
Sou médico e tenho um orgulho enorme da minha formação de cuidar das pessoas e salvar vidas. Esse é o maior patrimônio que tenho como governador. Fui o primeiro a decretar o isolamento social no país e a enfrentar o processo, dizendo que iríamos para a vacinação e para o isolamento para salvar vidas e recuperar a economia. Está aí: Goiás hoje apresenta o maior percentual de crescimento do país. Mantive a minha coerência como médico e ser humano que respeita a vida. Sobre a saúde em Goiás, ela era centralizada apenas em Goiânia, Anápolis e Aparecida. Um cidadão que morava na divisa do Tocantins provavelmente não chegaria com vida ao atendimento, ocorrendo o que chamamos de mortes evitáveis. Eu regionalizei a saúde com oito novos hospitais de média e alta complexidade para atender a essas regiões. Agora, o que ocorre hoje é que o governo Lula utiliza a verba da saúde para deformar o SUS. Tive de entrar no Supremo Tribunal Federal com uma ação contra o governo federal por não me repassarem R$ 1,2 bilhão na área de média e alta complexidade. É por isso que o Caiado é pré-candidato à Presidência da República. É algo rasteiro, pois eu nunca discriminei uma prefeitura minha em relação ao que é constitucional repassar, seja no transporte escolar, saúde ou alimentação. O Ministério da Saúde adotou uma prática que deformou os repasses; há 20 anos, a União era responsável por 52% do custo da saúde, hoje está em 40%. Ou seja, o custo foi repassado para estados e municípios. Não há estado hoje que gaste apenas 12%, estão gastando de 15% a 17%, e municípios gastam mais de 25%.
E a segurança pública? Há a PEC da Segurança, que o senhor, inclusive, colocou como seu cartão de visitas.
A PEC do Lewandowski e do Lula foi "enterrada". Eles queriam tirar dos governadores a prerrogativa de decidir sobre a segurança nos estados. O texto atual preservou essa condição e impôs ao governo federal que não houvesse discriminação nos repasses. Isso é o que há de mais importante hoje para enfrentar o crime organizado. Nos cinco mandatos do PT, a grande evolução no Brasil foi a das facções criminosas; o PCC e o Comando Vermelho são as maiores multinacionais brasileiras. Isso desacredita a estrutura do Estado. Acredito que a eleição de 2026 será um divisor e que vamos romper as bolhas da polarização. O Brasil não pode continuar vivendo esta situação na qual não se discutem temas relevantes para a vida das pessoas.
O senhor mencionou que, sendo eleito, assinaria um indulto para todos os envolvidos 8 de Janeiro. Qual a leitura que faz disso?
Imagine que você assume a Presidência da República — e eu não estou inovando, estou fazendo o que Juscelino Kubitschek fez, estou copiando o JK. Certo? Juscelino sofreu realmente uma tentativa de golpe; a Aeronáutica se rebelou para derrubá-lo, no famoso episódio de Jacareacanga, e ele superou aquilo. Ele disse: "Quero saber de uma coisa: deixem-me trabalhar". Se Juscelino Kubitschek fosse polarizar naquela hora, dizendo "sou vítima" ou algo do tipo, não teria agido como agiu. Ele traçou uma linha e disse: "De hoje em diante, acabou a brincadeira, e vamos trabalhar". Ele foi o estadista — o único da minha geração que conheci no Brasil — que teve um plano de governo com metas reais e uma ousadia ímpar de alterar a geografia brasileira, como a construção da Belém-Brasília; algo que nunca mais se viu. Depois disso, o Brasil entrou em um "enxuga gelo", onde nada se resolve. O Brasil perde espaço em tudo: em produtos manufaturados, em energia, em combustível, em inteligência artificial. E fica essa discussão rasteira, pobre e, pode-se dizer, burra, porque não é a característica do brasileiro. Vou dizer uma coisa que me impressionou muito esta semana. Eu tenho orgulho do Flamengo. Sou flamenguista, morei no Rio muitos anos, e o Zico é da minha época, o Galinho de Quintino. Ele escreveu um livro agora, intitulado Samurai de Quintino. Relata um fato que é importantíssimo e que se conecta ao que estávamos conversando: a mãe dele e a mãe do Roberto Dinamite iam juntas ao campo de futebol. No estádio, ele e o Roberto Dinamite se enfrentavam em campo, mas, terminado o jogo, as mães se reuniam e todos iam tomar café, almoçar e conversar. Nós debatíamos em um Congresso onde ninguém era apenas "despachante de emenda impositiva". Era um Congresso com comissões, sem voto virtual, com debates construtivos que varavam madrugadas e dias a fio, valorizando o conteúdo do debate. Depois disso, nós conversávamos no cafezinho; não havia a necessidade de, por eu ter defendido uma tese, você não poder mais falar comigo. Esse patrulhamento é burro; é de uma burrice ímpar. O Brasil não pode retroagir. Eu sou democrata na essência: já ganhei e já perdi. Nunca contestei campanha minha, nunca contestei a votação. Abriu o painel e ganhei? Ótimo. Perdi? Tenho o mesmo respeito por aqueles que ganharam. Isso é democracia. Não podemos regredir e ficar nesse debate primário e primitivo.
*Estagiário sob a supervisão de Cida Barbosa
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