O ex-delegado da Polícia Federal e deputado federal cassado Alexandre Ramagem está detido, nos Estados Unidos, desde a manhã dessa segunda-feira, após uma operação do Serviço de Imigração (ICE) daquele país. Ramagem é considerado foragido da Justiça brasileira desde que escapou do país, em setembro do ano passado, às vésperas do julgamento — pelo Supremo Tribunal Federal — que o condenou por participar do chamado "núcleo crucial" da tentativa de golpe de Estado.
Ex-diretor da Abin, Ramagem foi condenado a 16 anos e um mês de cadeia por organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado. Antes do julgamento — e com passaporte pessoal apreendido —, ele fugiu de automóvel para a Guiana, pela fronteira com Roraima. Da capital, Georgetown, seguiu para Miami, nos Estados Unidos, onde vive.
A prisão de Ramagem, na cidade de Orlando (Flórida), foi confirmada pelo próprio ICE, com a inclusão do nome do brasileiro na lista de imigrantes sob custódia da agência. Não há, porém, informação sobre em qual estabelecimento prisional ele está detido.
Sem citar o nome de Ramagem, a Polícia Federal também confirmou a informação, acrescentando que "a prisão é fruto da cooperação policial internacional entre Brasil e Estados Unidos no combate ao crime organizado".
O nome do condenado por golpe consta, desde dezembro do ano passado, da lista de procurados da Interpol. Na mesma época, a Embaixada do Brasil em Washington solicitou ao Departamento de Estado dos Estados Unidos a extradição dele.
Em princípio, a prisão do deputado cassado se deu por falta de documentação para permanecer nos Estados Unidos, e não pela condenação por crimes contra a democracia.
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Aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro compartilharam nas redes sociais, ao longo dessa segunda-feira, a versão de que Ramagem tinha sido detido em uma blitz de trânsito. O Ministério da Justiça e Segurança Pública explicou ao Correio que a custódia oficial dele pelo ICE não se confunde com o processo de extradição do condenado.
Segundo investigação da PF, Ramagem usou um passaporte diplomático da Câmara dos Deputados para entrar nos Estados Unidos. Esse documento foi cancelado pela Mesa da Câmara no fim do ano passado, após o então parlamentar ter seu mandato cassado, em 18 de novembro, por força das condenações na esfera criminal.
Em fevereiro deste ano, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), reabriu o processo contra Ramagem pelos crimes de dano ao patrimônio público e deterioração de bem tombado — cometidos na tentativa de golpe do 8 de Janeiro. Como esses crimes teriam sido praticados após a diplomação dele como parlamentar, a Corte suspendeu o processo, que só foi retomado neste ano, após a perda do mandato.
Mesmo foragido, Ramagem prestou depoimento ao STF, em fevereiro, por videoconferência, sobre as duas acusações pendentes. Ele negou participação nos atos de 8 de janeiro, disse que estava sendo perseguido por Moraes e rechaçou a acusação de ter usado ilegalmente a estrutura da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) para monitorar adversários do então presidente Jair Bolsonaro. No mês passado, a Procuradoria-Geral da República (PGR) pediu a condenação do parlamentar cassado nos dois processos.
Interações
Após a fuga para os Estados Unidos, para não ter de cumprir a pena imposta pelo STF, Ramagem continuou mantendo relações com a família Bolsonaro e com seus mais próximos apoiadores. Deu entrevistas a blogueiros de direita e fez postagens em redes sociais, incluindo um vídeo em que diz estar "seguro" nos Estados Unidos.
Há pouco mais de duas semanas, encontrou-se com o pré-candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, e com o irmão dele, o deputado cassado Eduardo Bolsonaro — que, mesmo sem condenação judicial, também fugiu para os Estados Unidos, onde mora atualmente. Na mesma decisão da Mesa da Câmara que declarou a perda da função de Ramagem, Eduardo teve o mandato cassado por faltar às sessões do Congresso.
Ramagem, Flávio e Eduardo se encontraram em Dallas (Texas), na edição 2026 da Conferência da Ação Política Conservadora (CPAC), a maior reunião internacional da extrema-direita. O condenado por golpe fez questão de registrar o encontro com os irmãos 01 e 03 em suas redes sociais. "Momento especial ao receber Flávio Bolsonaro, pré-candidato a presidente do Brasil. Orgulho de ter o Brasil bem representado com força no maior evento conservador do mundo!", escreveu na legenda de uma foto em que aparece abraçado aos filhos de Jair Bolsonaro.
Asilo
Em coletiva de imprensa à noite, parlamentares do PL minimizaram a prisão e ressaltaram que trabalham para liberar o deputado cassado. O senador Jorge Seif (SC) anunciou ter feito pedido à Embaixada dos EUA de asilo para Ramagem. "Protocolamos junto à embaixada americana aqui em Brasília um reforço para ser analisado o pedido de exílio político do Ramagem nos Estados Unidos", afirmou.
De acordo com Seif, o pedido encaminhado às autoridades americanas inclui solicitações para que o caso seja levado ao conhecimento do governo dos Estados Unidos e que o processo seja priorizado para evitar a deportação do deputado cassado.
O líder da oposição na Câmara, Cabo Gilberto Silva (PB), repetiu o discurso de que a detenção ocorreu em razão do vencimento do visto. "Como todos sabem, quem não tem o green card, o visto tem validade de seis meses, e o dele venceu em março", explicou.
Silva frisou, ainda, que o ICE teria identificado a situação irregular após uma abordagem de trânsito, mas afirmou não ter detalhes sobre o episódio.
Ele também destacou que a detenção ocorreu em um contexto que, segundo ele, envolve "perseguição política". E questionou decisões do STF.
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